segunda-feira, 30 de julho de 2012

Salazar

DEVERAS CURIOSO
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“O irregular e promíscuo funcionamento dos poderes públicos é a causa primeira de todas as outras desordens que assolam o país.
Independentemente do valor dos homens e das suas intenções, os partidos, as facções e os grupos políticos supõem ser, por direito, os representantes da democracia. Exercendo de facto a soberania nacional, simultaneamente conspiram e criam entre si estranhas alianças de que apenas os beneficiários são os seus militantes mais activos.
A Presidência da Republica não tem força nem estabilidade.
O Parlamento oferece constantemente o espectáculo do desacordo, do tumulto, da incapacidade legislativa ou do obstrucionismo, escandalizando o país com o seu procedimento e, a inferior qualidade do seu trabalho.
Aos Ministérios falta coesão, autoridade e uma linha de rumo, não podendo assim governar, mesmo que alguns mais bem intencionados o pretendam fazer.
A Administração pública, incluindo as autarquias, em vez de representar a unidade, a acção progressiva do estado e a vontade popular é um símbolo vivo da falta de colaboração geral, da irregularidade, da desorganização e do despesismo que gera, até nos melhores espíritos o cepticismo, a indiferença e o pessimismo.
Directamente ligada a esta desordem instalada, a desordem financeira e económica agrava a desordem Política, num ciclo vicioso de males nacionais. Ambas as situações somadas conduziram fatalmente à corrupção generalizada que se instalou…”
Meus amigos:
O que acabaram de ler não é cópia de nenhum artigo do “Público”, “Diário de Notícias” ou de qualquer revista.
Nem sequer é da minha autoria.
Contudo, é actual.
Trata-se de parte do primeiro capítulo de um livro agora posto à venda em Portugal e, que data de 1936!
Li-o, gostei e aconselho-o!
Vejam então qual é o livro:
Oliveira_Salazar_CAPAOliveira_Salazar_CCAPA
(Retirado da net)

"Arquitectos da Pobreza", de Moeletsi Mbeki

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Architects-of-poverty_capa O Vice-presidente do Instituto Sul Africano para as Relações Internacionais (SAIIA), Moeletsi Mbeki, lançou na tarde de Quarta-feira, no Instituto Real Para Assuntos Internacionais, Chatham House, o livro “Arquitectos da pobreza”. Porque o capitalismo africano deve mudar’. Mbeki, que é também irmão do ex-presidente sul-africano, Thabo Mbeki, usa o caso da Africa do Sul e do Zimbabwe, onde viveu durante o exílio, para discutir e ilustrar, as razões que levam a que alguns países africanos se desenvolvam, ao mesmo tempo que outros se ‘sub-desenvolvem’.
Na opinião de Mbeki, os estados pós-coloniais em Africa herdaram dois tipos de elites nacionalistas: as elites detentoras de propriedades e as não detentoras de propriedade. No caso em apreço, as elites detentoras de propriedade, ao receberam a gestão dos respectivos países dos colonizadores, utilizaram o estado para rentabilizar as suas propriedades, vivendo dos lucros aí produzidos. No caso concreto da Africa do Sul, a elite Afrikaner que recebeu o estado sul africano dos britânicos, nos primórdios do século XX, usou o estado para rentabilizar o bem que detinha, a terra e as farmas. Para tal, usando fundos de investimento, receitas do estado, empréstimos, ajuda e poupanças individuais, construiu infra-estruturas, incluindo um sistema de estradas, telecomunicações e serviço ferroviário, que é um dos maiores de Africa.
Tal sistema ferroviário, por exemplo, destinava-se a possibilitar o escoamento do seus produtos das farmas, para os centros industriais de Johannesburg e a cidade mineira de Kimberly, os maiores centros de consumo da época. Essas elites viviam do lucro dos seus investimentos, possibilitando ao estado a angariação de impostos necessários para a realização de mais investimentos e reabilitação de infra-estruturas, o que facilitou o processo de industrialização na Africa do Sul. O caso das Maurícias também foi citado como fazendo parte deste cenário.
Por outro lado, as elites não detentoras de propriedade, como o que aconteceu na maior parte da Africa sub-Sahariana, incluindo Mocambique, quando chegou ao poder, substituiu os colonizadores e priorizou a sua própria capitalização, usando fundos do estado, que deveriam ser utilizados para a construção ou manutenção de infra-estruturas indispensáveis para a industrialização. Para satisfazer as suas bases de apoio, tais elites ao invés de investir na criação da riqueza, apostando no empreendorismo e na criação ou manutenção de infra-estruturas que criassem empregos, aumentou as despesas sociais (saúde, educação, expansão do acesso a electricidade), o que criou uma situação crónica de deficit nas contas nacionais, levando seus países numa espiral de consumo crescente sem produção ou manutenção das infra-estruturas de produção. O resultado e o enriquecimento exponencial da elite no poder, ao mesmo tempo que cresce o empobrecimento das massas rurais, daí o surgimento de greves dos trabalhadores, da policia, militares, conflitos armados, fome e até guerras.
Para ilustrar sua teoria, Mbeki comparou a estratégia das elites post-coloniais africanas com a das elites Sul-Asiaticas, citando os casos paradoxais entre o Ghana e a Coreia do Sul. Por exemplo, em 1965, o Ghana possuía um rendimento por pessoa superior ao da Coreia. Em 1972, os níveis de rendimento por pessoa na Coreia eram quarto vezes mais altos que os do Ghana. Entre 1965 e 1995 as exportações Coreanas aumentaram 400 vezes, enquanto que as do Ghana cresceram apenas 4 vezes!
Outro exemplo citado por Mbeki e o caso da elite sul-africana do ANC que uma vez no poder usou o estado, através de politicas de acção afirmativa, para criar uma elite negra parasita, que não produz riqueza mas em contrapartida tem consumos excessivos. O recente caso dos multimilionários 'Mercedes Benz' dos ministros do governo do ANC foi citado como um dos exemplos do consumismo da nova elite. e a recente greve dos militares do exército sul-africano, bem como os ataques xenófobos aos estrangeiros na africa do Sul. como o resultado do crescimento do fosso entre a elite cada vez mais rica e as bases cada vez mais pobres.
A recente crise de energia na Africa do Sul, também serviu de ilustração à tese de Mbeki. Preocupado com seus apetites consumistas, a elite do ANC pos-1994, ‘convenientemente esqueceu-se de investir’ no sector energético, mas lembrou-se de alargar o acesso de energia distribuição de rações às camadas mais pobres. O resultado não se fez esperar, foram os apagões eléctricos nas maiores cidades do país, consequência do deficit energético que hoje invade a Africa do Sul, e a que Moçambique não ficou imune, e originou o adiamento da construção da Mozal III. Um cenário semelhante ocorreu na Nigéria, onde as elites pós-coloniais convenientemente se ‘esqueceram de investir' naquela que era uma das maiores redes ferroviárias do país, e que hoje colapsaram, fazendo com que um quarto da produção agrícola se perca no campo, por falta de transporte para os centros de consumo.
Manuel de Araújo

LIVRO AQUARTELAMENTOS DO NIASSA E DA ZAMBÉZIA

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Niassa_Zambezia_Capa PALAVRAS PRÉVIAS Quanto às razões que nos motivaram a escrever sobre a Guerra do Ultramar em Moçambique, já tudo foi dito em obras anteriormente editadas, pelo que não queremos repetir-nos para não cansar os nossos leitores, uma vez que têm uma “árdua tarefa” pela frente, que é percorrer os cerca de 225 300 quilómetros quadrados, tantos quantos dizem respeito aos Distritos do Niassa e Zambézia, base deste nosso trabalho.
Contudo, seria imperdoável da nossa parte, não prestar alguns esclarecimentos que a serem omitidos, levariam, porventura, a quem nos lê, a interrogar-se. Porquê de novo os Aquartelamentos do Niassa, se estes já foram abordados em 2002?
A razão principal, deve-se às solicitações de militares que prestaram a sua comissão no Niassa e que nos motivaram a escrever sobre o mesmo tema.
Quando nos debruçámos sobre os Aquartelamentos do Niassa que foram publicados em Número Especial da Revista Batalhão, da qual fomos responsáveis durante 15 anos, fizemo-lo em moldes diferentes daqueles que, posteriormente, utilizámos em relação a Cabo Delgado e Tete.

Assim, estimulados pelas palavras de incentivo recebidas, passámos, de imediato, do projecto à acção.
Deste modo, aproveitámos a oportunidade para agregar, neste livro, o Distrito da Zambézia, por sabermos que muitas Unidades, que cumpriram a sua missão em zonas de 100% de intervenção, eram transferidas para este Distrito com a incumbência de efectuar patrulhamentos.
Posto isto, iremos tecer umas breves considerações quanto ao conteúdo deste trabalho, nomeadamente à forma como foi estruturado. Os dois primeiros capítulos são destinados aos Distritos do Niassa e Zambézia inserindo os aquartelamentos, em cada um deles, por ordem alfabética de A a Z. Refira-se, que apenas constam os locais por onde passaram Unidades a nível de Batalhão ou Companhia e nunca aqueles que serviram de Destacamento, excepção feita a Miandica, cujas razões se encontram explícitas na própria página. Quanto às imagens, muitas delas chegaram-nos em condições muito “envelhecidas”. Apesar disso, resolvemos não as excluir, por encerrarem dentro de si muita história que interessa dar a conhecer. Reproduzimos, também, por comparação e sempre que possível, imagens captadas recentemente nas “peregrinações” que muitos combatentes têm efectuado aos locais por onde andaram há décadas.
Abordámos, ainda, no capítulo terceiro, a maior tragédia ocorrida durante a guerra do Ultramar, o desastre no rio Zambeze, uma vez que ele esteve também ligado ao Distrito da Zambézia.
Antes de finalizar queremos deixar uma palavra de gratidão a todos, sem exclusão alguma, com quem contactámos no sentido de obter fotos ou outros elementos, quer escritos ou verbais, para a elaboração deste livro.
Fica também expresso, por antecipação, os agradecimentos a todos aqueles que nos irão contactar, depois de lerem o livro, dizendo-nos que tinham “imagens magníficas” deste ou daquele lugar…
Manuel Pedro Dias
Tlm 914631055

Marcelino dos Santos considerou afastar Mondlane da Presidência da Frelimo

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THE_HOT_COLD_WAR_capa - revela autor russo em livro recentemente publicado
“Decidimos logo de principio deixar que Mondlane permanecesse na direcção do movimento, e nós iremos trabalhar no seio do movimento e guiar a frente. Mais tarde, se for necessário, será possível substituir Mondlane.” - Marcelino dos Santos
“Toda a gente sabe e nós sabemos que o presidente da Frelimo, Eduardo Mondlane, é um americano, mas de momento não existe outro homem em Moçambique que possa liderar a luta e em torno do qual as forças que lutam pela independência possam unir-se... Até agora, Mondlane é o único homem – educado, que tem ligações e influência no estrangeiro. Afinal, ele é um moçambicano negro, não um branco ou mulato como eu. Não devemos esquecer também que Mondlane é capaz de angariar dinheiro. É verdade, segundo dizem, que ele obtém o dinheiro do governo dos Estados Unidos, mas esse dinheiro vai para a luta.”
Pouco depois da formação da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), a antiga União Soviética manifestou-se apreensiva pelo facto da direcção do movimento de libertação moçambicano ter ficado nas mãos de Eduardo Mondlane, que era tido por Moscovo como estando ligado aos Estados Unidos. “Naturalmente, os soviéticos tentaram avaliar a situação, pedindo a opinião aos seus amigos africanos”, revela Vladimir Shubin, autor do livro, “The Hot ‘Cold War’- The USSR in Southern Africa” (A ‘Guerra Fria’ Quente – A URSS na África Austral).
Shubin, que presentemente exerce as funções de vice-director do Instituto para os Estudos Africanos em Moscovo, acrescenta que no decurso da conferência constitutiva da OUA em Adis Abeba em Maio de 1963, Latyp Maksudov, representante soviético na Organização de Solidariedade Popular Afro-Asiática, abordou o nacionalista angolano, Mário Pinto de Andrade, a quem pediu a sua opinião a respeito de Eduardo Mondlane. Na opinião de Pinto de Andrade, o líder da Frelimo era “homem honesto, mas no entanto não era um político, mas um missionário.”
Acrescentou o nacionalista angolano então membro do MPLA: “Mondlane não dificulta o trabalho de Marcelino dos Santos, e aqui muito pode ser feito. O Marcelino dos Santos está a trabalhar, e portanto a Frelimo existe e actua”.
De acordo com o autor de “A ‘Guerra Fria’ Quente – A URSS na África Austral”, Latyp Maksudov abordou depois Marcelino dos Santos, tendo este declarado: «Toda a gente sabe e nós sabemos que o presidente da Frelimo, Eduardo Mondlane, é um americano, mas de momento não existe outro homem em Moçambique que possa liderar a luta e em torno do qual as forças que lutam pela independência possam unir-se... Até agora, Mondlane é o único homem – educado, que tem ligações e influência no estrangeiro. Afinal, ele é um moçambicano negro, não um branco ou mulato como eu. Não devemos esquecer também que Mondlane é capaz de angariar dinheiro. É verdade, segundo dizem, que ele obtém o dinheiro do governo dos Estados Unidos, mas esse dinheiro vai para a luta.»
Coincidindo com o ponto de vista manifestado anteriormente a Maksudov por Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santos salientou: «Decidimos logo de principio deixar que Mondlane permanecesse na direcção do movimento, e nós iremos trabalhar no seio do movimento e guiar a frente.» Salientou depois Marcelino dos Santos: «Mais tarde, se for necessário, será possível substituir Mondlane.»
(Eduardo Mondlane viria a ser assassinado a 3 de Fevereiro de 1969, em Dar es Salaam)
CANALMOZ – 27.10.2009

domingo, 29 de julho de 2012

"SABUJICE E TRAIÇÃO", pelo Dr. Neves Anacleto

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Sabujiceetraicao_capa2 Neves_anacleto António Neves Anacleto (1897-1990), advogado, natural de S. Bartolomeu de Messines (Silves) publicou na sua obra A Longa Luta: preso, algemado e deportado, ed. do autor, s.d., com prefácio de António Almeida Santos algumas notas interessantes de memórias sobre a actividade oposicionista em Portugal e em Moçambique. O prefaciador menciona os vinte anos de amizade que o uniam a Neves Anacleto, ambos viveram em Moçambique, e, juntos se envolveram em campanhas de oposição ao governo da ditadura, quando fizeram parte da comissão, que naquela antiga colónia portuguesa, apoiou o General Humberto Delgado à presidência da República.
Francisco Louça, do Bloco de Esquerda, é seu neto.
..............
PORQUE NOS BATEMOS EM ÁFRICA
Aí por 1912 a Alemanha teve a pretensão de apoderar-se dos territórios portugueses, e o Conde de Bwlov, Ministro dos Estrangeiros alemão, insistia com o Foreign Office para a repartição desses territórios em zonas de influência da Inglaterra e da Alemanha.


Cientes dessas intenções, os democratas portugueses aprovei­taram a guerra de 1914-18 a fim de nela se imiscuírem para, na conferência da paz que se seguisse, terem voz activa no arranjo final das decisões.
No parlamento, na imprensa e nas tribunas públicas, o governo de então defendeu a nossa intenção nessa guerra.
No parlamento havia um grande grupo de deputados que eram oficiais do exército e que defenderam a nossa entrada na guerra como um direito que provinha dos interesses portugueses em jogo, e, honra a esses oficiais, todos eles se ofereceram para combaterem nela e todos se bateram nas trincheiras da Flandres, e aqui morreram muitos que se ofereceram para o combate.
No final, os nossos direitos foram mantidos e, na Sociedade das Nações que se criou, tiveram os portugueses papel de relevo.
Afonso Costa foi eleito Presidente da Assembleia Geral da Socie­dade das nações, e o Portugal íntegro — Metrópole e o Ultramar — foi assegurado pela honra e dignidade do Exército da República.
Depois do traiçoeiro golpe de 28 de Maio, toda a Nação, Metró­pole e Ultramar, ficou submetida à despótica tirania destruída em 25 de Abril último
O peso da ditadura surgida em 28 de Maio de 1926 caiu sobre todos os portugueses quer fossem metropolitanos quer fossem do nosso ultramar.
E todos sofremos dolorosamente essa traição, e quando Salazar, em nome dessa traição, elaborou o Acto Colonial, que transformava em colónias as províncias ultramarinas, todos nós, os democratas, comba­temos, na medida do possível, a lei que nos dividia em colonizadores e colonizados.
P.S.:
O autor foi um dos muitos democratas que estava entalado na ditadura e mais entalado ficou na revolução:
Não era fascista. Não era comunista. Predestinado a ser um entalado.
Esta triste fase da nossa história recente envergonha-nos.
Uma história tabu do PCP, abafada na “solidariedade revolucionária” das esquerdas, com a colaboração da direita envergonhada, como escondida ficou a “vida privada” de muitos dos intervenientes, chamados “ capitães de Abril “ e outros “revolucionários “, que passaram a “novos capitalistas “ a substituir capitalistas com “benesses empresariais “ retiradas da revolução dos cravos.
In http://barreirovelho.blogspot.com/2009_02_01_archive.html


 

PORQUE NOS BATEMOS EM ÁFRICA

Aí por 1912 a Alemanha teve a pretensão de apoderar-se dos

territórios portugueses, e o Conde de Bwlov, Ministro dos Estrangeiros alemão,

insistia com o Foreign Office para a repartição desses territórios em zonas de

influência da Inglaterra e da Alemanha.

Cientes dessas intenções, os democratas portugueses aproveitaram a

guerra de 1914-18 a fim de nela se imiscuírem para, na conferência da paz que

se seguisse, terem voz activa no arranjo final das decisões.

No parlamento, na imprensa e nas tribunas públicas, o governo de

então defendeu a nossa intenção nessa guerra.

No parlamento havia um grande grupo de deputados que eram oficiais

do exército e que defenderam a nossa entrada na guerra como um direito que

provinha dos interesses portugueses em jogo, e, honra a esses oficiais, todos

eles se ofereceram para combaterem nela e todos se bateram nas trincheiras da

Flandres, e aqui morreram muitos que se ofereceram para o combate.

No final, os nossos direitos foram mantidos e, na Sociedade das

Nações que se criou, tiveram os portugueses papel de relevo.

Afonso Costa foi eleito Presidente da Assembleia Geral da Sociedade

das nações, e o Portugal íntegro — Metrópole e o Ultramar — foi assegurado

pela honra e dignidade do Exército da República.

Depois do traiçoeiro golpe de 28 de Maio, toda a Nação, Metrópole e

Ultramar, ficou submetida à despótica tirania destruída em 25 de Abril último

O peso da ditadura surgida em 28 de Maio de 1926 caiu sobre todos

os portugueses quer fossem metropolitanos quer fossem do nosso ultramar.

E todos sofremos dolorosamente essa traição, e quando Salazar, em

nome dessa traição, elaborou o Acto Colonial, que transformava em colónias as

províncias ultramarinas, todos nós, os democratas, combatemos, na medida do

possível, a lei que nos dividia em colonizadores e colonizados.

A PRECIPITAÇÃO

Cunha Leal, talento dos mais lúcidos, insurgiu-se contra o nefando

Acto-Colonial, o que lhe valeu ver o seu lar invadido numa madrugada de

inverno, quando foi levado em pijama para a prisão da Pide (que então se

chamava a Polícia de Informação) e nesse mesmo dia foi conduzido à fronteira,

sendo assim expulso do país.

Com esta atitude contra Cunha Leal, o despótico Salazar quis mostrar

que nós, os democratas, só tínhamos os direitos que ele concedia

paternalmente aos nossos irmãos colonizados.

Mas a nossa identidade com estes não se quebrou, e sofremos o que

eles também sofreram.

O 25 de Abril libertou-nos a todos, metropolitanos e ultramarinos.

Mas nós, os metropolitanos, não aproveitámos a liberdade para nos

revoltarmos contra Portugal que não era culpado dos malefícios dum bando

sem amor pátrio; todavia alguns bandos de ultramarinos aproveitaram-se para

desferir golpes de morte contra Portugal, esquecendo-se daqueles que sempre

estiveram a seu lado e que sempre os trataram como irmãos.

Ora, nestes ultramarinos há que distinguir dois grupos: os negros,

aborígenes de África e os brancos, aborígenes da metrópole portuguesa.

Se alguns negros, por ambição despótica do mando, invocam a cor da

sua pele para repudiarem a sua qualidade de portugueses, isso representa

grave ingratidão que tem a aquiescência de quase o mundo inteiro ; mas que o

façam os aborígenes da metrópole, é uma traição que o mundo repele.

No programa da Revolução das Flores encontra-se o princípio da

liberdade individual e da liberdade de grupos:

Para estes foi estabelecido o princípio de auto-determinação, que

será aproveitado livremente segundo os ideais democráticos.

Segundo este princípio, os grupos têm a liberdade de escolher, por

eles próprios, a forma de governo que entenderem.

Nesta forma de governo não se exclui a aceitação da direcção

portuguesa; mas os grupos poderão escolher a Direcção que bem lhes

aprouver.

E não se exclui a Direcção portuguesa porque estamos convencidos

da existência de muitos negros, que por discernimento e afeição dela não

querem sair.

Ora isto é objecto de escolha, ou de opção, do somatório das

vontades individuais.

Foi por isto que a Junta de Salvação Nacional e a seguir o Presidente

Spínola, declararam que todos aqueles que pegaram em armas contra Portugal

e que se encontram refugiados em países estrangeiros, podiam livremente

regressar aos seus lares para, cada um, fazer a propaganda do seu ideário, em

vista ao referendum a realizar para escolha da Direcção que haveria de ser

instaurada.

— 2 —

Assim, a livre escolha é que se chama pura democracia segundo os

cânones
universalmente definidos.

Para isto seria necessário um cessar fogo de ambos os lados; e quer

a Junta de Salvação Nacional, quer o Governo Provisório, ordenaram que o

exército português ensarilhasse as suas armas.

Em resposta, os bandos guerrilheiros declararam e proclamaram que

não depunham as armas e que continuariam a luta até obterem a sua vitória

definitiva; isto é, a independência completa pela transmissão de poderes. E nas

suas farroncas exigiam a imediata entrega de poderes.

Esta atitude revela-nos duas coisas:
o ávido desejo do Poder, e o

receio de que as populações não aceitem o seu domínio ambicioso.

Isto é já um motivo para que o governo português se acautele na

entrega dos selos do Estado a qualquer bando armado que não represente a

vontade geral do grupo.

Mas o Governo Provisório, que teve a pouca sorte de meter no seu

seio um homem comprometido com os bandos armados contra Portugal, deixou

que este se avistasse imediatamente com esses grupos. E tão comprometido o

dito ministro se encontrava, que acabada a primeira reunião desse governo o

Dr. Mário Soares imediatamente saiu dela para se meter num avião, posto à

sua ordem pelo Presidente Sengor, e para Dakar se dirigiu onde conferenciou

com este como intermediário desses bandos.

Quero dizer: antes da primeira reunião do Conselho de Ministros que

se efectuou logo a seguir à tomada de posse do Governo, já Mário Soares

andava em pulgas para mostrar aos seus aliados a sua missão cumprida.

Esta "missão cumprida" seriam as suas promessas aos bandos

guerrilheiros, as quais significavam mãos largas de quem não sentia ainda o

peso das responsabilidades.

Ora as responsabilidades é que constituem óbice à independência

imediata prometida e ratificada nos primeiros discursos do Dr. Mário Soares.

Na verdade, a engrenagem dum Estado amalgamado em estruturas

de 500 anos de existência, não pode ser entregue, de pé para a mão, a

pessoas absolutamente estranhas a essas estruturas.

Calcule-se o caos que não seria se de um momento para o outro o

ex-ajudante de enfermeiro Samora Machel e Marcelino dos Santos tomassem

conta do Estado de Moçambique ! ! !

O Dr. Mário Soares, brincando alegremente com coisas sérias, como

um menino com um novo brinquedo, levou o bando de guerrilheiros ,a pensar

que a transmissão de poderes estava segura e para já, como o dava a entender

a pressa com que o Governo Provisório lhes mandava o seu ministro dos

estrangeiros.

E para eles, essa pressa denunciava a aflição e o desespero em que

se encontrava o Governo Provisório para desfazer-se do
fardo Colonial por

pressão das forças armadas que teriam feito a revolução para esse efeito

exclusivo.

— 3 —

E tanto isto é assim que Samora Machel proclama que foram os

movimentos guerrilheiros que fizeram a Revolução das Flores.

Foi este convencimento feito certeza que levou a Frelimo a impor

condições como se estivesse a tratar com um exército vencido, em vez de

aceitar a posição de negociar em pé de igualdade, onde não haveria vencedor

nem vencido, como declarou o delegado da Junta de Salvação Nacional,

General Costa Gomes, quando veio a Lourenço Marques.

Pois esta posição correcta, de não haver vencedor ou vencido nas

negociações, foi repudiada pela Frelimo que quis tomar a posição vitoriosa

perante um exército vencido, e prometeu que a sua luta armada continuaria

enquanto o Governo Português não proclamasse a independência de

Moçambique.

E a verdade é que a Frelimo continuou a luta, chacinando diariamente

as pessoas que ao norte da Beira se atrevem a usar as estradas construídas

com muito custo para utilidade das respectivas populações. E a Frelimo já não

escolhe: chacina diariamente negros e brancos que se atrevam a usar essas

estradas, aproveitando-se desleal e desumanamente da circunstância do

Exército Português ter as suas armas ensarilhadas em cumprimento da palavra

honrada do povo português.

A circunstância da abstenção temporária da luta por parte do exército

português, conjugada com a acção desleal e criminosa da Frelimo nos seus

cruéis e desumanos ataques traiçoeiros, levou os espíritos débeis a julgar como

realidade a vitória irreversível desta, e por isso eles avançaram em audácia

demente nos seus ataques contra as pessoas, contra a honra destas, e contra

a liberdade de todos que não se degradaram ao ponto de dar vivas à Frelimo. E

agora, por aí andam à compita cada um pretendendo ser o que mais alto ergue

a disforme cabeça para que a Frelimo veja e lhe dê a compensação que julga

merecer, quando ela tomar conta do governo de Moçambique.

Neste esgar de traição e sabujice evidencia-se um punhado de

portugueses europeus que sobreleva em pujança o frémito em que vivem

alguns negros sequiosos da Frelimo por alma e coração.

Estes portugueses europeus são tão destemperadamente perigosos

que atacam por palavras orais e escritas, e até por omissões, todos aqueles

que resistem na sua portugalidade à demência, ao mesmo tempo que sublimam

as virtudes da Frelimo e dos seus componentes, sendo alguns elevados à

categoria de super-homens, senão de deuses.

Por toda a parte e de todos os lados se fala da Frelimo como salvador

das almas escravisadas, e até as meninas histéricas a invocam com a devoção

dos fanáticos de outro mito que é Fátima.

A FRELIMO

Mas o que é a Frelimo ?

A Frelimo é uma organização e, como tal, será aquilo que forem as

pessoas que a compõem. É uma organização paga pelo estrangeiro para

— 4 —

atacar o domínio português em Moçambique. Os dirigentes da Frelimo vivem

bem, com todas as comodidades das pessoas bem instaladas na vida, e

deslocam-se de uma Nação para outra com a facilidade da abelha quando se

desloca de uma flor para outra flor em procura da matéria prima para fabricação

do mel.

Há uma dúzia de anos que estes nababos recebem de países estranhos

a Moçambique dinheiro para as suas vidas faustosas, e armas para espalharem

a morte nas terras moçambicanas. E não se cansam.

E não se cansam porque não são eles que gastam energias na luta e

sim aqueles que vão ficando pelo caminho, mortos ou estropiados.

E porque têm muito dinheiro, podem consumir este em armas

mortíferas e numa propaganda dimensionada ao mundo terráquio.

E tão densa é esta propaganda que transformou a mente de muitos

portugueses a tal ponto que estes chegam a inverter o sentido das coisas e dos

factos, pois chamam mentira à verdade, ou vice-versa.

Assim, eles atribuem a autoria das guerras coloniais à iniciativa

portuguesa e os seus panfletos clandestinos e os seus jornais murais nunca se

enfastiaram do
Slogan: "Acabe-se com a guerra colonial."

Não obstante a minha aversão ao governo fascista eu não lia sem

vómitos um tal Slogan.

Com que direito se exigia a um tal governo que acabasse com uma

guerra da iniciativa dos outros ?

Mesmo neste momento que o governo saído da revolução satisfez

esse idiota e miserável Slogan, e para isso cruzou os braços, os guerrilheiros

continuam a assassinar inocentes como acabo de ler no Notícias, órgão

matutino da Frelimo, no momento em que escrevo — 21/6/74.

Agora, que o novo governo ensarilhou as armas, esses dementes

portugueses gritam-lhe:
declare já a independência.

Claro que isto é impossível para um governo responsável, dada a

complexidade dos direitos e das obrigações que surgem dum tal acto.

No processo da descolonização só houve um governo que se

apressou na declaração da independência do povo colonizado, se bem que não

tão depressa como a exigem agora os neo-democratas portugueses:
foi o

holandês.

Mas a precipitação da Holanda obrigou-a a pôr à ordem dos seus

naturais, navios e aviões, para o transporte rápido de 60 000 pessoas.

Quando três anos após a independência da Indonésia os jornalistas,

que visitaram Java, encontraram as ruínas da que fora uma cidade florescente.

O mesmo acontecerá a esta linda cidade de Lourenço Marques

quando os portugueses daqui saírem e entrar a Frelimo com o seu cortejo de

desatinos, de incompetências e de vaidades satisfeitas.

Isto não antevêem os neo-democratas que esperam com as suas

sabujices e traições ocuparem lugares de destaque que a Frelimo, por falta de

quadros e de gente capaz, lhes oferecerá.

— 5 —

Por agora eles repetem a propaganda que a Frelimo faz, com o

dinheiro estrangeiro a que fica hipotecada, das suas virtudes e dos seus

encantos.

E a Frelimo fala de um programa que não tem e que ninguém viu, e

que todos os neo-democratas invocam como coisa certa e sabida.

Até os rapazinhos do liceu e os universitários invocam constantemente

o programa da Frelimo, e as mocinhas histéricas enroscam-se nas

pregas desse programa para gritarem : Viva a Frelimo !

Quando a revolução de 28 de Maio instalou no poder um grupo de

generais sem ideias e sem saberem o que fazer das rédeas do poder, surgiu a

necessidade de contrapor à desorientação alarmante a afirmação de que tudo

seguiria segundo o plano concebido e todos começaram a invocar o programa

do 28 de Maio.

E então todos falavam no programa do 28 de Maio como se tal

programa tivesse existido. E quando algum atrevido como eu então o era, pedia

para que lhe fosse mostrado esse programa todos os malandros em vez de o

mostrarem ameaçavam-nos com a polícia.

Agora os neo-democratas como outrora os fascistas do 28 de Maio,

falam-nos do programa da Frelimo.

Mostrem esse programa ! Vá !

Para obviar a esta pergunta, a "Voz de Moçambique", outro órgão da

Frelimo, prometeu publicá-lo segundo corria na cidade. E no dia em que

haveria de publicá-lo formaram-se bichas de grande extensão nos locais onde a

V. M. era posto à venda.

Meti-me na comprida bicha para comprar a V. M. e consegui o meu

objectivo. Adquiri um exemplar que tenho em meu poder.

Dos muitos milhares esgotados pela avidez popular eu tenho um.

Ao lê-lo verifiquei que a V. M. dava ao tão apregoado "Programa da

Frelimo" o nome de "Estatutos da Frelimo."

Com razão a V. M. não lhe deu o nome de programa, porque seria

vergonhoso que lhe desse tal nome.

Todavia os mocinhos e as mocinhas histéricas e ignorantes

continuam a chamar-lhe "Programa da Frelimo."

Na verdade aquilo nem é programa nem é Estatutos.

É um amalgamado de fracções de programa, de relatório e de

estatutos.

A confusão mental de tal documento seria o bastante para pôr fora de

combate qualquer grupo político, em qualquer parte do mundo, que o exibisse

em público como Programa ou como Estatutos.

Não renunciarei a publicar esse mostrengo quando o analizar ponto

por ponto em trabalho que com vagar publicarei.

Quero mostrar ao futuro a falta de independência mental de todos

aqueles que dão vivas à Frelimo. Os vivas à Frelimo ficarão como paradigma

da estupidez humana

— 6 —

OS HOMENS DA FRELIMO

Em Lourenço Marques todos os jornais, menos
O Diário, que

normalmente, por razões minhas, não leio, são órgãos da Frelimo ou como tais

se comportam.

A falta de imparcialidade que toda a gente, e com razão, atribuía aos

jornais do tempo dos governos fascistas, é agora mais vincada nos jornais

dirigidos pelos neo-democratas. Na minha velha luta contra o fascismo eu sofri

horrivelmente os efeitos da censura à imprensa. "O Jornal" que dirigi em 1936-

37 em Lourenço Marques, foi aniquilado pela censura. "O Jornal" foi proibido de

publicar os anúncios que algumas repartições públicas lhe enviavam ; e os

anúncios judiciais de que eu, como advogado, tinha de publicar nos jornais, fui

proibido de fazê-lo no meu próprio diário.

No entanto, num ou noutro dia eu conseguia habilidosamente inserir

alguma prosa que o olho policial de Salazar não consentiria ; mas agora, neste

regime de liberdade, eu não consigo que o "Notícias" ou a "Tribuna" publiquem

artigos meus que contrariem o espírito da Frelimo contra Portugal.

Os homens da Frelimo, quer os dirigentes desta quer os que a

defendem e se encontram ao seu serviço, são implacáveis : nada de permitir

que os seus contrários apresentem e defendam os seus pontos de vista.

Eles receberam ordens para nos
mentalizarem no sentido de

aceitarmos o despotismo da Frelimo, e fazem-no extremisticamente : nada

contra a Frelimo ; tudo a favor da Frelimo.

Eis a razão porque tenho de usar o panfleto para defender uma

política de paz e harmonia entre brancos e negros.

Para esta política terei de combater erros e desmistificar os
tabus.

No documento chamado Estatutos da Frelimo publicado na V. M., dizse

que um dos objectivos da Frelimo é a
"Conquista da independência

imediata e total de Moçambique."

Para quê esta independência, e qual o seu conteúdo ?

Vamos admitir que esta independência se destina a dar ao povo

moçambicano a liberdade de se reger por ele próprio, escolhendo livremente os

órgãos da sua administração pública, sem a intervenção de estranhos.

Ora, a intervenção portuguesa não pode ser estranha a Moçambique,

não só pela sua presença de 500 anos, como porque aqui residem centenas de

milhares de portugueses que os arautos da independência dizem que eles

devem ficar e não saírem daqui.

Por outro lado existe toda uma estrutura secular instaurada pelos

portugueses, como são as cidades, as estradas, os portos, os caminhos de

ferro, onde eles deixaram o seu esforço, o seu carinho e o seu amor a esta

terra.

Como pode um povo que aqui viveu 500 anos, que aqui deixou os

seus mortos, a sua cultura, e a amizade pelos que com ele construíram tudo o

que foi acrescido a esta terra, sentir-se nela estranhos ?

- 7 -

No entanto, o preceito transcrito inculca que o povo português

passará a ser um estranho como qualquer outro povo.

Estou convencido que esclarecidos imparcialmente todos os

moçambicanos, a maioria deles votaria uma independência com os portugueses,

corolário que também se tira do facto dos freliministas recusarem o

referendum que eles aceitariam da melhor vontade se tivessem a certeza de

que a grande maioria dos moçambicanos votaria na Frelimo.

Mas como poderá a Frelimo dotar Moçambique de uma independência

total sem os portugueses, já que ela se hipotecou previamente às

nações que lhe pagaram para guerrear Portugal ?

Então esses empréstimos, em dinheiro e em armamento, concedidos

durante 12 anos não se pagam ?

Onde está em qualquer parte do mundo, um esmoler tão desinteressado

que durante 12 anos espórtula quantias assombrosas sem querer o

seu reembolso ?

Para já diremos que nos poucos dias que precederam o encontro de

Mário Soares com Samora Machel em Lusaca, aqui se reuniram Kaunda,

Nyerere e Mobutu, dirigentes da Zâmbia, da Tanzânia e do Congo, para

estabelecerem o destino de Moçambique depois da independência.

Foi isto o que disseram todas as agências telegráficas e publicado

nos jornais.

O destino de Moçambique, depois da independência, não foi gizado

pela Frelimo, mas sim pelos três países mencionados que foram dos que

contribuíram com dinheiro para a vida e emprezas da mesma Frelimo.

Não é verdade que a Frelimo, ou os seus dirigentes, trabalhe para

uma independência, que de ante-mão se apresenta impossível.

Uma tal independência está previamente comprometida ; e tudo o que

esteja comprometido, não é independente.

O Dr. Mário Soares é homem comprometido com os movimentos

guerrilheiros, e por isso mesmo ele não goza de independência para

representar a parte contrária à Frelimo.

Foi um erro do Governo Provisório encarregá-lo de negociar aquilo

que ele se havia comprometido dar.

Este homem comprometido, compromete o Governo e o seu país ; ele

só pode ser favorável a quem se vinculou nas suas promessas.

Assim os homens da Frelimo não gozam de liberdade suficiente para

tornar Moçambique independente, porque eles se encontram vinculados aos

países que lhes pagaram as despesas de guerra e os têm sustentado; e nesses

países encontram-se principalmente, a Zâmbia, Tanzânia e Congo, que já

determinaram o destino que lhe darão, como já se disse anteriormente.

E esse destino desconhecem-no os povos de Moçambique que

seriam, assim, lançados no abismo do desconhecido.

E que capacidade têm os dirigentes da Frelimo para governar um

Estado e dirigirem uma Nação ?

Quando perguntaram a Samora Machel a razão porque Marcelino

— 8 —

dos Santos estava ausente das conversações de Lusaca, respondeu que

Marcelino dos Santos estava ausente porque ele Samora se encontrava aí; pois

se Marcelino dos Santos estivesse presente teria ele de estar ausente.

Isto significa que os dois, Samora e Marcelino dos Santos, são os

principais dirigentes da Frelimo, e que se substituem um ao outro.

Pois Marcelino dos Santos, falando aos jornalistas em Dar-es-Salam,

declarou que quando a Frelimo tomar conta do poder,
fechará o porto de

Lourenço Marques à África do Sul ; retirará desta os 100 mil trabalhadores

moçambicanos que trabalham nas minas deste país, e que a energia que

provirá de Cabora Bassa não alimentará a África do Sul.

Isto que disse Marcelino dos Santos, é o mesmo que dirá Samora

Machel porque ambos são a Frelimo.

É o programa desta. Cá está o programa que eu em vão procurara.

É impossível encontrar maior irresponsabilidade em qualquer homem

político em qualquer parte do mundo.

E são estes que querem governar Moçambique, e é isto a Frelimo a

que os mocinhos e as mocinhas, bem como os neo-democratas, dão vivas.

Sabido que a maior fonte de receitas de Moçambique são os portos e

caminhos de ferro, e que outra grande fonte de receita provém dos

trabalhadores que operam no Rand é inconcebível que a Frelimo pretenda

acabar com tais receitas. Mas não fica por aqui o belo programa : as receitas

que resultariam do tal fornecimento de energia de Cabora Bassa, que tanto

dinheiro e tanta boa vontade foram dispendidas para as obter, também não

entrarão nos cofres de Moçambique.

Em consequência, outra grande fonte de receita desaparecerá : a do

turismo.

E, porque a Frelimo pretende preparar guerrilhas contra a África do

Sul, passará Lourenço Marques a não exportar bananas para este país, nem

dele receber frutas, legumes, batatas e outras comodidades.

Por outro lado, os 100 mil trabalhadores das minas do Rand

regressarão às suas terras. E quem lhes dará trabalho depois ?

São 100 mil pessoas que emigraram por não terem trabalho nas suas

terras, e passarão a ficar nelas afogando a sua miséria, graças à Frelimo.

Não se pode vislumbrar maior irresponsabilidade em homens políticos

do que a que se constata nos homens da Frelimo.

Pobre Moçambique, pobres populações, o que vos espera.

O IMPÉRIO DA IMBECILIDADE

Desde que acabou a censura à Imprensa apareceu nas colunas dos

jornais a chusma dos plumistas.

Isto foi um bem para a revelação de muita imbecilidade que vivia

açaimada e que rebentava para vir à luz do dia.

—- 9 —

Uns apavorados com as incertezas que molestam todos, e que por

qualquer circunstância não podem escapar-se, procuram deter o êxodo, pelo

receio de ficarem sós, com insultos aos que partem, chamando-lhes covardes

em cartas que os jornais publicam.

No Notícias de 22-6-74, um destes plumistas fantasiava um amigo

que se vai, e a quem dirigia carta dizendo-lhe que a sua permanência aqui seria

uma lacuna que "dificilmente será preenchida", e isto devido a tratar-se de uma

pessoa "possuindo um bom carácter e de dotes de inteligência" que "muito

poderiam contribuir para o bem estar dos teus subordinados."

Depois segue a dar conselhos ao amigo de quem diz ser de "péssima

formação moral" e que o trabalho que o ocupava, e que lhe fora oferecido fizera

dele o "ser ignóbil que actualmente és."

E mais adiante : "pois, apesar de tudo, estou convencido que a tua

pavonice actual nada mais é que estupidez assente na totalidade do ditado

antigo e que em ti se adapta perfeitamente —
Quem te mandou a ti sapateiro

tocar rabecão."

Os dislates continuam mas não podemos transcrevê-los na totalidade

porque teremos de ocupar-nos de outros "escritores."

Logo a seguir à carta citada vem outra, que embora razoavelmente

escrita, não deixa de revelar a irresponsabilidade do seu autor.

Depois de denunciar um membro do Fico à ira e révanche da massa

negra, refere-se à minoria que ficar subordinada ao poder negro, ou seja o da

Frelimo :

"Não tenham porém receio. A ninguém serão retirados os

seus haveres, ninguém irá ser perseguido, nem morto, nem

agredido, se a sua actuação, dentro da Sociedade

moçambicana, tiver sido e for a que é de exigir a qualquer

cidadão íntegro e consciente dos seus deveres como dos

seus direitos."

Este fala com segurança e dá a certeza do que pertence ao futuro.

Seria bom que se lembrasse da matança do Karume em Zanzibar ; da

expoliação e da expulsão dos indianos no Uganda, da expoliação dos

agricultores brancos do Quénia ; das matanças do Congo, etc.

Há ainda um que escreve para que seja feita uma lista dos nomes das

pessoas que partem.

Coitado ! Tomara ele que não faça parte de uma lista dos que ficam e

que mais tarde necessitem de regressar a Portugal ...

Outros preocupam-se muito com falsos e verdadeiros democratas,

convencidos de que eles é que são os verdadeiros se bem que os verdadeiros

nunca os tenham encontrado no caminho da luta pela democracia.

Os órgãos da Frelimo em Lourenço Marques estão cheios destes

novos pregadores que em tudo actuam como fascistas menos nos slogans

velhos e relhos que sem abuso os verdadeiros democratas usaram nos

momentos apropriados.

— 10 —

Estes pregadores freliminos gritam que o fascismo não morreu, que é

necessário estar em guarda contra ele, mas pretendem instaurar um governo

tirânico, de partido único, para impedir que se oiça a voz da verdade,

precisamente nos moldes estabelecidos por Mussoline, por Hitler, por Salazar e

por Franco.

E sem vergonha de qualquer natureza explicam que a Frelimo, como

único representante do povo moçambicano, exclui qualquer outro agrupamento

político por ela representar a vontade deste mesmo povo. E ainda longe do

poder,
já nos impõe esta falsa lógica, impedindo-nos de responder na imprensa

às suas daninhas mentiras e aos seus desconchavos de promoção do ódio

racial contra o homem branco. Veja-se como os jornais freliminos dão relevo a

grandes ou pequenos erros ou delitos dos homens brancos e como desculpam

ou ocultam os crimes dos negros.

Recentemente o "Diário" publicou a notícia do crime de dois ou três

malfeitores negros contra um casal de brancos, e uma filha destes, enquanto o

"Notícias" e a "Tribuna" ignoraram a existência do mesmo crime executado na

Namaacha.

Se há um conflito entre um negro e um branco estes dois jornais

freliminos relatam-no segundo o que lhes contou o negro sem ouvirem ou

procurarem ouvir o branco.

Pode ver-se, em toda a actuação destes jornais, desde que caíram

nas mãos de pessoas encarregadas de nos mentalizar, a sua nítida posição

contra o homem branco que sofre aí constantes ataques, directa ou

indirectamente, como opressores e exploradores do trabalho dos negros. A

população branca está sendo amarrada e desarmada para ficar inerme contra

eventuais crimes ou desatinos dos negros.

Devo declarar, que todas estas armadilhas contra os homens brancos

são manipuladas por indivíduos brancos que perderam toda a noção de uma

pátria que lhes deu origem e galgaram a barreira do equilíbrio do bom senso

que manda erigir a harmonia entre brancos e negros. Não são os negros em

geral que pretendem romper esta harmonia ; e quando algum destes aparece

enraivecido por lendas ancestrais é nos jornais frelimistas que encontra campo

para vazar o seu ódio e o seu despeito.

Nestes jornais tudo se faz para diminuir o homem branco e enaltecer

o negro.

Vejamos como se expressa o enviado do Notícias à conferência de

Lusaca.

"Samora Machel, que nos anteriores encontros com o Dr.

Mário Soares já se havia apresentado como um líder de

invulgar envergadura e homem despendendo enorme força

de carácter, com uma personalidade verdadeiramente

esmagadora, apresentou-se a todos os presentes como um

político experimentado, um estadista batido por anos de

combate, e estamos certos que, no fim de uma hora de

reunião nenhum dos jorna-

— 11 —

listas presentes abandonou a State House sem estar

completamente rendido à evidência; Samora Machel é o

homem capaz de gerir os destinos de um país numa hora

crucial como a que Moçambique atravessa."

Depois disto, desta verdadeira masturbação intelectual, podemos

ajuizar não só as tendências de um tal jornal, como a mentalidade da
coutada

nele instalada para nos mentalizar.

E que os coutos é que orientam o referido jornal basta percorrê-lo

diariamente e neles encontraremos os seus programas em caixa, como jóias

supremas a alimentar a avidez sequiosa dos leitores.

Está mesmo a ver-se o espanto do representante do Notícias ao ouvir

o que nunca lhe tinha sido permitido :
a voz de um líder de invulgar

envergadura.

Aqui já ele começou sentindo acumular-se-lhe água na boca, como

sucede aos esfaimados perante a aparição de um bom naco de presunto.

Depois olhou para Samora, de cara emoldurada numa expressa

barba, e logo lhe ocorreu :
que cara! Que carácter! Que forte carácter!

Já fora de si, olhou para Samora, que também olhou para ele. Assim

olhos nos olhos, o representante do Notícias baixou os dele, e pudicamente

monologou :
que pessoa, que personalidade ! É verdadeiramente

esmagadora
! E como uma criança de dois anos que vê grande altura noutra

de dez, o correspondente do Notícias viu
envergadura, enorme força de

carácter, força esmagadora,
no ex ajudante de enfermeiro do Hospital Miguel

Bombarda.

E sempre batido pelos seus temores internos, concluiu : que
grande

"estadista."

E virando os olhos para si mesmo viu que todos os presentes se

haviam rendido à evidência : "Samora Machel é o homem capaz de gerir os

destinos de um país numa hora crucial como a que Moçambique atravessa."

O que nos faz espécie é que em tão pouco tempo, no espaço de uma

hora, o jornalista tenha descoberto o ovo de Colombo : estava ali de carne e

osso, o grande estadista.

É necessário uma grande inteligência para descobrir, sob umas

barbas espessas, onde nem um piolho oculto poderia avistar-se, um grande

estadista.

Não seria bom aproveitá-lo para exercício do seu talento ?

Não haverá para aí uma Ilha onde este talento, perdido nas páginas

de um jornal de extensão limitada, possa ceder o seu enorme engenho à

humanidade sofredora ?

Não seria caso virgem. Já D. Quixote, para premiar os talentos do seu

escudeiro, Sancho Pança, lhe deu o governo da Ilha da Barataria, do qual este

se houve magnificamente, distribuindo justiça a quem a merecia.

— 12 —

São estas mentalidades ressequidas e tortuosas, todas elas

comprometidas por atitudes levianamente tomadas anteriormente, que foram

colocadas em pontos estratégicos para nos mentalizar.

Tais mentalidades enfermam de incapacidade crítica, pois não sabem

separar um acto isolado de uma corrente de pensamento ou dum sistema, e

confundem a mata com a árvore ou a parte com o todo.

Daí agarrarem-se a esta ou aquela frase de Samora Machel, proferida

intencionalmente para efeitos de propaganda, como sendo o sistema ou o

programa da Frelimo.

E quando os actos desta são cruéis, criminosos e desumanos,

estendem o pescoço para exclamarem que tais actos terão sido praticados por

elementos da D. G. S. ou por grupos do Eng. Jardim, ou por quaisquer outros

elementos reaccionários, embora a mesma Frelimo declare continuar a luta e

que não deporá as suas armas enquanto não for decretada a independência.

Eles não estarão convencidos do que afirmaram, mas acham ser

conveniente mentir não só para justificarem o seu desvio patriótico como para

convencerem a indefesa população branca a ter confiança na arma que a

liquidará.

Mentem ; mentem mais do que os fascistas e acusam estes (e nesta

acusação tem o meu apoio) de ocultar a verdade, de não deixarem que eles

houvessem conhecido os estadistas e a beleza do regime da Zâmbia, de onde

trazem lembranças de uma vida encantadora ; e tudo isto observado em

poucas horas.

A acusação estaria bem na minha boca que sempre me bati contra os

fascistas sem alguma vez adoptar as suas tácticas ; mas na boca dos neodemocratas

que pretendem a instauração do partido único ; que tolhem a

publicação de factos cruéis que se atribuem à Frelimo ; que iludem a população

branca garantindo-lhe uma tranquilidade que ninguém pode garantir, é vil

ofensa à consciência do português natural de Portugal.

Chegam a repudiar abertamente o
referendum para escolha do

destino a dar a Moçambique, alegando que só a Frelimo representa o povo

moçambicano, porque se este povo não estivesse de alma e coração com ela,

a luta não poderia manter-se 10 anos sem o seu apoio.

Também o fascista Salazar, que tinha na sua secretária uma

fotografia de Mussoline para se inspirar, dominou o povo português durante

quarenta anos e poderia dizer, e certamente o disse, que se este povo não

estivesse de alma e coração com ele, ser-lhe-ia impossível aguentar-se no

poder durante tão longo tempo.

É uma afirmação fascista tanto do Salazar, como de Hitler, como de

Franco, como dos neo-democratas.

Todos fascistas no partido único ; na mentira, na ocultação da

verdade, no impedimento das vítimas se defenderem, na calúnia, no insulto, na

liquidação das liberdades de reunião, de greve, de pensamento escrito ou

falado, etc.

— 13 —

Quando os jornalistas dos órgãos freliminos "Tempo", "Notícias" e

"Tribuna" nos dizem que tudo estava em ordem e em beleza na Zâmbia, eu dirlhes-

ei que nos tribunais plenários que funcionavam em Lisboa e no Porto os

julgamentos não eram públicos, e todavia qualquer dos freliminos que passasse

junto dum desses tribunais poderia ver as suas portas abertas e um público

assistente que os enchia de lés a lés.

Simplesmente qualquer frelimino que lá quisesse entrar não poderia

fazê-lo por falta de lugar e à porta não poderia permanecer por ordem

expressa da polícia.

É que o público que diariamente enchia esses tribunais era a Pide, e

não havia espaço para mais ninguém.

E qualquer estrangeiro que fosse visitar Portugal encontrava sempre

um cicerone (Pide) que o conduzia da melhor vontade para os lugares não

proibidos. E se o estrangeiro quisesse lugares proibidos, também se lhe dava

um jeito ; o que acontecia era haver uma pequena demora para a transferência

de lugares, indo a Pide fazer de prisioneiros na cadeia.

É assim no fascismo ; é assim nos regimes de partido único ; é assim

na Zâmbia, onde os proficientes jornalistas laurentinos viram, todos, muito bem.

Nas eleições em que se candidatou o General Delgado, ficou a meu

cargo a vigilância da secção eleitoral n.° 1, no prédio dos bombeiros, onde hoje

está a construir-se o grande prédio do Montepio.

Às 15 horas fui expulso dessa secção de voto, por não ser eleitor; o

mesmo havia sucedido em outras secções aos Drs. Almeida Santos e Soares

de Melo, que também não eram eleitores. Tivemos essa novidade — não

sermos eleitores — quando nos apresentámos como assistentes, mas estes

meus amigos e outros amigos foram expulsos logo que entraram ; eu fui

expulso às 15 horas.

Ao ser expulso deixei um eleitor democrata a substituir-me com a

recomendação de que vigiasse bem a contagem de votos.

No dia seguinte dizia-me esse eleitor democrata, no café, na

presença de vários democratas : "na secção de voto onde eu estive não

houve roubalheira: posso garanti-lo".

Não pude manter-me sem o magoar um pouco, dizendo-lhe que eu

vira o roubo desde a porta, e a todos contei como fora efectuado o mesmo. O

nosso democrata ficou varado. Não tinha visto o roubo.

Ora, eu tinha passado na secção de voto onde está instalada a

universidade e vi Francisco Maria Martins abrir a urna, despejar os boletins de

voto e, do monte efectuado, foi tirando um a um esses boletins e dizia, sem

olhar para os mesmos : Delgado, Tomaz, Tomaz, Tomaz, Tomaz, Delgado . . .

e a operação continuava com um para Delgado e quatro para Tomaz.

Não me podendo conter gritei da porta :
Olhem como aquele tipo faz

a contagem mesmo sem olhar para as listas.

Nisto, a polícia que estava na parte de dentro junto ao vão da

— 14 —

porta, correu como se fosse uma porta corrediça, dizendo-me : o Snr. não
pode

manifestar-se.

Já me manifestei ; e nisto retirei-me com as pessoas que me

acompanhavam.

Dali seguimos para a Estação dos Bombeiros onde o arquiteto Soeiro

fazia a operação nos mesmos moldes postos em prática por Francisco Maria

Martins.

Mas o nosso democrata não tinha visto nada disto, e estava ali para

as curvas, afirmando que na secção de voto por ele vigiada não houvera

roubalheira.

Também os inteligentes enviados dos jornais laurentinos viram tudo

normal em Lusaca. De resto eles não queriam ver de outra maneira...

Mas se tais visitantes viram uma vida normal e progresso nessa terra,

deviam interrogar-se, e não se interrogaram : porque razão o Sr. Kaunda

instituiu o partido único dissolvendo o partido contrário à sua política pessoal e

meteu na cadeia os partidários do partido dissolvido?

Ora a coutada do Notícias não se interrogou, nem se interrogaram os

representantes do mais velho órgão da Frelimo — "O Tempo".

E não se interrogaram para não vacilarem no caminho que os tem

levado a sufocar a permanência da portugalidade que ainda aquece o coração

de muitos portugueses que querem ficar em Moçambique, em paz e harmonia

com os negros com quem desejam viver irmamente.

A intranquilidade e a ansiedade que esta mini-gente tem espalhado

sobre Moçambique levou o covarde europeu a dar vivas à Frelimo e tem

conduzido alguns negros a tomarem atitudes contra os brancos e que não

tomariam se não se sentissem desfavorecidos quando aqueles apresentassem

à Frelimo a sua folha de serviço.

Ainda hoje li no Notícias da Beira, outro órgão frelimino, uma

correspondência de Quelimane, da Delegação deste jornal, que é bem um

índice da covardia de que falo.

Essa correspondência relata que no dia 8 de Junho, domingo, um

camião caiu de uma ponte para o rio e nesta ficou com as rodas viradas para

cima. O chaufer e seu ajudante ficaram na cabine e aí morreram por não terem

conseguido abrir as portas do veículo.

Chamado o administrador, compareceu este que nada pode fazer,

pois o camião não era um brinquedo para ser levantado do rio com uma só

mão.

Só no dia seguinte o Administrador, certamente preparado agora com

os meios necessários para retirar o camião do fundo do rio, efectuou a

operação de retirada do veículo.

Agora os comentários do escriba :

"Dois corpos, de dois negros, por ali pernoitaram na

morte.

Talvez se fossem brancos ... tal não sucedesse, mas

isto não merece comentários."

— 15 —

O "escriba" não deu a notícia sem esse miserável comentário e talvez

a tivesse dado somente para o fazer, para poder apresentar a sua folha de

serviços à Frelimo. O que é que o autoriza a dizer que se os mortos fossem

brancos tal não sucederia ?

E são estes miseráveis que chamam covardes aos que temendo o

futuro incerto, procuram a metrópole onde julgam encontrar a vida mais segura.

Como poderia uma pessoa digna viver tranquila com um governo

caótico e tirânico de irresponsáveis sem estar sujeita à cavilosa delação dos

sabujos brancos que ficam, tendo em mira encher a pança à custa de uma vida

de falsos serviços ?

Não ! É necessário desmascarar estes tartufos !

Como estão a ver, a minha luta não é, nem nunca foi, contra os

negros. Ela foi e é contra os pulhas que não têm dignidade, nem escrúpulos

nem honra !

Na ânsia de apresentarem a sua folha de serviço eles são capazes de

todas as vilezas ; são capazes de denunciarem os outros brancos inocentes só

para gozarem pantagruelicamente o dia de hoje, na esperança de no dia

seguinte cometerem outra infâmia.

Basta o receio provocado por estes safados para que as pessoas

dignas sintam a necessidade de fugir para outras paragens.

É certo que na metrópole portuguesa há destes
tipos ; mas aí haverá

tempo para encontros prolongados . . .

A LEALDADE NA VIDA PÚBLICA

O homem público, o que interfere e dirige, não na vida particular de

cada um, mas na vida e no interesse de todos, tem deveres para com as

pessoas que dirige, ou seja com o povo. Entre esses deveres destaca-se o da

lealdade para com a massa popular.

E ser leal ao povo é ser-lhe verdadeiro, franco e sincero, e ainda o de

defensor das pessoas e interesses do mesmo povo.

Quando Samora Machel e Joana Simião se dizem defensores do

povo de Moçambique e se expressam acerca deste como coisa possuída, a

expressão "meu povo" que ambos usam é uma deslealdade para com esse

mesmo povo.

Tal expressão indica uma relação entre o sujeito possuidor e a coisa

possuída, ou seja uma relação entre o
Senhor, possuidor, e o povo, coisa

possuída.
É uma relação entre o dono e o escravo.

Enquanto prometem defender o direito do povo pensam neste como

coisa possuída a quem esse direito é outorgado pelo Senhor, segundo a sua

vontade, o seu engenho e a sua medida, e não tem em mente um direito do

povo, criado por este mesmo. Isto é uma deslealdade.

Esta deslealdade é princípio da Frelimo porque o direito que ela tem

em mente é o que for estabelecido por ela mesma, e executado pelo seu órgão

único ou partido único, e não o direito criado e definido pelo povo.

— 16 —

Este o princípio defendido pela Frelimo, por Samora Machel e pelos

fascistas ou neo-democratas de Moçambique.

E tal princípio conduz à unidade política colmatada na pessoa do

chefe. O fascismo exige o chefe permanente e perpétuo que manda e ordena,

com exclusão de qualquer outra pessoa.

Assim compreende e quer a sub-gente que escrevinha nos jornais de

Lourenço Marques e no da Beira quando se referem ao
Presidente.

Eles tratam Samora Machel por
Presidente, como nos Estados

Unidos é tratado o chefe do Estado, e insultam-no de
Estadista, epíteto que

mais ninguém no mundo se atreveria a aplicar-lhe

Não é o interesse do povo que Samora Machel tem na mente ; o que

nesta se encontra é a sofreguidão de poder que empolga e ensandece o exajudante

de enfermeiro do Hospital Miguel Bombarda.

Na entrevista que concedeu ao semanário "L'Express", revela-nos o

Notícias de 23-6-74, Samora Machel disse :

"Mário Soares pediu para que voltássemos a avistar-nos em

Julho, a fim de nos dar uma resposta do seu governo.

Escutá-lo-emos. Mas não a fim de nos dar a resposta do seu

governo.

Escutá-lo-emos. Mas não aceitaremos negociar senão os

mecanismos de transferência de soberania para a Frelimo."

Como se vê, o "estadista" não aceita discutir com o governo

português. Escuta o seu amigo Mário Soares, mas não para discutir propostas

do Governo português. Deste só aceita a entrega do poder para a Frelimo ; e

quando muito aceita uma
falação sobre o mecanismo da transferência da

soberania para a Frelimo.

O que lhe importa a ele, o "estadista" da coutada do Notícias, o

interesse do povo moçambicano ?

O que ele quer é o Poder nas unhas.

Quanto à venda da energia de Cabora Bassa para a África do Sul,

que Marcelino dos Santos já afirmara que a Frelimo não a fará a este país, diz

o
"estadista":

"Seremos livres para vender a energia a quem quisermos e

discutir com todos aqueles que a quiserem comprar. Não

forçamos a África do Sul a mudar de sistema, mas quem nos diz

que a África do Sul e a Rodésia continuarão a ser nesse

momento inimigos de Moçambique ?"

O "estadista" só não diz, como Marcelino dos Santos, que não

venderá a energia de Cabora Bassa à África do Sul porque espera, com a sua

ajuda, mudar imediatamente os destinos deste país.

— 17 —

Os seus
olhares esmagadores não vêm que a mudança dos destinos

da África do Sul, se fosse possível, só se faria com muito sangue e ao fim

de muitos anos.

É que a África do Sul não se limitará a aparar os golpes ; ela desferirá

golpes de morte que os guerrilheiros da Frelimo não estão habituados a

sustentar.

Se os portugueses, em vez de se entreterem a roçagar as minas

traiçoeiras e a fazer de gatos aos ratos da Frelimo, atacassem os seus

santuários nos países que os guardavam e ajudavam, o decorrer da luta tinha

trazido outras consequências.

Mas aos governos fascistas portugueses faltava autoridade moral

para uma acção coerente e resoluta contra todos os culpados.

Se esses governos não tivessem cometido a traição de se manterem

no poder a todo o custo, sem quererem saber do interesse nacional, a acção

militar, sustentada pela acção política, tinha desfeito de início as investidas de

bandoleiros.

Mas que apoio poderia ter nos meios internacionais, depois da queda

de Hitler, o governo fascista de um país pequeno ?

Mas o traidor Salazar, o maior traidor de toda a história portuguesa,

desprezando o interesse nacional, manteve-se, pela violência, no poder para, a

certa altura, lançar para o ar a girândola :

SÓS, ORGULHOSAMENTE SÓS
!

Foi este traidor que tornou possível a manutenção das guerrilhas, sem

ao menos ter a habilidade e a coragem de jogar uma cartada que nunca

poderia ter resultados mais desastrosos do que aqueles que vieram a verificarse.

Mesmo agora, com um governo democrata à frente dos negócios da

Nação, a forma de luta poderá modificar-se no caso dos guerrilheiros, em vez

de negociações sérias, leais e honestas, optarem pela luta.

E o grande "estadista" da
Coutada do Notícias, parece querer brincar

com o fogo, entretendo-se a assassinar régulos e povo de Moçambique, como

se depreende da carta de Miguel Murupa publicada no Notícias da Beira de 24

de Julho de 1974.

Parece-nos por tudo isto errada a atitude do governo provisório,

consentindo negociar com indivíduos que não podem representar o povo de

Moçambique e que têm cometido muitos e graves crimes, e que perante o

mundo afirmem como se tivessem nas suas mãos um exército derrotado :

"Foi Portugal que pediu para se avistar connosco."

Esta posição em que nos colocou a diplomacia do comprometido Dr.

Mário Soares, é uma humilhação que nos faz corar de vergonha.

É necessário limparmos esta mancha, seguindo o caminho certo.

E o caminho certo é preparar-nos para a auto-determinação de

Moçambique, como consta do programa do Movimento de Salvação Nacional,

negociando com homens de Moçambique que aqui se encon-

— 18 —

tram e vivem, de categoria mental muito superior à do "estadista" da
coutada

do
Notícias.

Nós não devemos negociar os interesses de um povo com inimigos,

sobretudo quando temos pessoas amigas ou neutras com quem podemos

tratar.

Há negros, muitos negros em Moçambique, capazes de conduzir este

povo ao bom caminho e à sua emancipação.

Pela boca do General Costa Gomes, representante da Junta de

Salvação Nacional, foi dito que a Frelimo e todos os que nos têm guerreado

podem regressar a Moçambique para defenderem as suas ideias os seus

princípios políticos, e connosco preparar, em paz, a auto-determinação do povo

de Moçambique.

Depois disto o governo português desceu a procurar a Frelimo num

país estrangeiro e nosso inimigo, para lhe dizer que as portas estavam abertas

para de igual para igual, num clima de paz, onde não figurasse a imagem de

vencedor ou de vencido, a fim de estabelecermos a autodeterminação, seguida

daquilo que o povo livremente escolher quanto à forma de governo e

estruturação da nova Nação.

E o que respondeu a Frelimo ?

Respondeu que não quer conversas com o governo português a não

ser para receber deste os mecanismos de transferência de soberania.

E mais : exige que o governo português declare já a independência

de Moçambique.

Esta resposta, além de atentatória da dignidade de um governo

responsável, implica a exigência de uma traição aos soldados negros que

confiaram na lealdade portuguesa, aos cidadãos negros que desde longa data

têm servido Portugal e Moçambique, e sobretudo uma traição à grande massa

do povo que não compartilha dos feios ou obscuros sentimentos frelimistas a

soldo de países estrangeiros.

Há ainda os estropiados e a memória dos mortos por efeito dos

criminosos atentados da Frelimo, que é necessário respeitar.

A nossa dignidade ordena-nos consideração e respeito por aqueles

que não nos feriram nem nos ofenderam, e será com estes que nós teremos

que negociar.

Seria uma traição a estes se os entregássemos à tirania da Frelimo,

grupo sem respeito pela humanidade e pelos princípios da liberdade

democrática.

E tanto isto é verdade que a Frelimo se recusa à experiência de um

homem um voto, princípio que ela e os estados negros conhecidos defendem

encarniçadamente para aplicar aos
outros.

Para os da Frelimo e para todos os Frelimistas, como os neo--

democratas ou fascistas, o princípio de um homem um voto tem agora de ser:

todos os votos para um homem.

Todos os votos para um homem ; para o
Fiirer; para o Duce, para o

estadista da coutada do Notícias.

— 19 —

Em nome dos princípios sagrados da democracia nós portugueses

temos de oferecer a todos os moçambicanos o direito de escolha, razão porque

a Frelimo tem de ser excluída do nosso pacto com o povo moçambicano.

Entretanto a Frelimo ataca as populações indefesas e espalha sob a

terra que calcamos os pérfidos engenhos de morte. O exército terá então de

combater como declarou o General Costa Gomes ; mas ao desensarilhar as

armas terá consigo o povo e não faltarão os voluntários para devolver à sua

proveniência as armas que apreender.

Penetraremos nos santuários dos criminosos e aí os liquidaremos

sem que a justa voz internacional nos magoe, e desprezaremos a voz irracional

de um mundo de loucos. Mas estes loucos não se batem : o que estes querem

e sempre quiseram é que os outros se batam por eles.

O que seria de Moçambique se o governo de Portugal entregasse o

poder aos incapazes e mal intencionados da Frelimo ?

Em síntese poderemos desenhar o que aconteceria.

As receitas dos Portos e Caminhos de Ferro, que são as mais

vultuosas de Moçambique, desapareceriam.

As receitas dos trabalhadores das minas do Rand, deixariam de

existir.

As receitas do turismo, quase totalmente da África do Sul e o restante

de navios que deixariam de frequentar o Porto de Lourenço Marques, também

desapareceriam.

As três maiores fontes de receita para Moçambique secar-se--iam,

com a agravante do regresso de 100 mil homens que ficariam sem trabalho.

Cá está o programa, o grande programa da Frelimo, que todos os

pobres de espírito e os mal intencionados apregoam.

Não terão estas pessoas pudor ou vergonha que os faça corar, por

apregoarem a bondade de um governo de ignorantes que não têm a mais

pequena ideia do que sejam as necessidades de Moçambique ?

Agora ajunte-se ao corte das referidas receitas o de outras que serão

eliminadas, como as do chá, que desaparecerão em virtude das empresas

respectivas não comportarem o aumento de salários, e ver-se-á desenhado um

quadro de carência e de miséria que faria mergulhar todo o povo moçambicano

no abismo.

Esclareça-se ainda que o encerramento do Porto de Lourenço

Marques é uma das grandes medidas que a África do Sul pode tomar, em

retaliação contra Moçambique, e que é precisamente o programa que a Frelimo

porá em prática ! ! !

Ora, a África do Sul não necessita do Porto de Lourenço Marques

para escoar os seus produtos, pois pode o escoamento deles ser feito pelo

Porto de Durban.

Não quero dizer que o escoamento por este Porto seja o mais

conveniente para a África do Sul quanto aos produtos do Sudeste Africano ;

mas pode muito bem fazê-lo por ele.

— 20 —

Para um escoamento mais económico dos produtos do Sudeste

Africano do que o do Porto de Durban, tem a África do Sul, desde há muitos

anos, o projecto de um Porto a sul da Svvazilandia e que só não está de todo

completo devido a ameaças veladas ou declaradas do Governo Português de

retirar-lhe a mão de obra para as minas do Rand desde que ela cesse o tráfego

pelo Porto de Lourenço Marques.

Portugal tem actuado deste modo por haver a clara consciência de

que a cessação do tráfego dos produtos do Sudeste Africano pelo Porto de

Lourenço Marques seria um golpe de morte para Moçambique.

Pois é este golpe de morte que a Frelimo oferece como coisa certa ao

povo de Moçambique !

É legítimo agora perguntar se este golpe de morte é inconsciente por

desconhecimento absoluto dos problemas vitais de Moçambique, ou é

consciente e deliberadamente para reduzir à miséria o povo deste Estado?

Que respondam a coutada do Notícias e todos os frelimistas, incluindo

os fascistas ou neo-democratas, que afirmam ter o
"Presidente" ou o

"Estadista"
da coutada, conhecimento profundo dos problemas profundos de

Moçambique e que ele é o homem capaz de governar Moçambique na hora

conturbada que este atravessa.

Ora, o homem político que pretenda imiscuir-se na administração

política deve ser leal para o conjunto dos cidadãos, sem os iludir ou induzi-los

em graves erros, e os dirigentes da Frelimo não só não se preocupam com

essa lealdade como ainda pretendem levar o povo de Moçambique a envolverse

em guerra de guerrilhas, ou guerra de qualquer outra modalidade, contra

a África do Sul.

A este respeito, além de outras afirmações de compromisso, Samora

declarou a "L'Express" :

... "mas quem nos diz que a África do Sul e a Rodésia

continuarão a ser nesse momento inimigos de Moçambique"?

Será necessário explicar o significado desta expressão ?

Como se vê, o Estadista não se cansa de guerras. E porquê ? Porque

não é ele que se bate. Ele vive calmamente em Dar-es-Salam e passeia por

Lusaca, Londres ou Paris, e recebe o dinheiro de potências estrangeiras para

uma vida de regalo. Vida de regalo para ele e para os seus comparsas.

Samora Machel tem confiança nos sabujos e nos traidores que lhe

preparam o ambiente para ser recebido como o grande Elias.

Nos jornais frelimistas eles esgrimem com a mentira e a calúnia

explorando os baixos instintos humanos, e abusam da ignorância do povo.

O jornal "Notícias" que hoje 25-6-74 me chegou às mãos repete o seu

conteúdo diário de ataques à administração portuguesa e os apelos aos

baixos instintos dos ignorantes.

Com o título
"A verdadeira face do colonialismo", o jornal descreve

pela pena de um dos seus redactores, ou colaborador assistente, a vida triste

de um homem que, de empregos vários aqui e na

— 21 —

África do Sul, atinge a situação presente de alimentar-se do que consegue

extrair das latas do lixo.

A situação desse homem que pode resultar da maneira como ele

próprio se conduz na vida, é a situação de muitas outras pessoas na Europa ou

na Ásia, nada tem a ver com o colonialismo mas que o repórter do Notícias, e

que este acolhe, como diariamente faz com outros escritos, apresenta como

sendo a verdadeira face do colonialismo.

Se o repórter não sabe, e o Notícias ignora, que em todo o mundo se

verificam casos semelhantes ao exemplificado nesse escrito, é porque não

estão à altura de escrever num jornal, nem o Notícias está na posição de ser

órgão de responsabilidade e de informação para com os seus leitores.

E se não é por ignorância que confundem os casos que surgem em

todas as situações e em todas as latitudes e longitudes, com os casos

específicos do colonialismo, então não pode excluir-se a sua má fé

incompatível com a obrigação de apresentarem a verdade aos seus leitores.

No mesmo jornal e ao lado do artigo — reportagem a que acabámos

de aludir — aparece outro do mesmo género, e este com a sugestão de

gravuras, intitulado "Império Agrícola do Maputo", em que a maldade, a

ignorância, a mentira e a falta de escrúpulos, aparelha com o antecedente.

Entre dois artigos — reportagem aludidos — destaca-se o artigo

doutrinário de um dos corifeus do Notícias, intitulado "orgulhemo-nos da nossa

História", com a prosápia de nos ensinar a evolução histórica de Moçambique.

Deste professor de História transcrevo do referido artigo o seguinte :

"Os portugueses quando desembarcaram em Moçambique

encontraram reinos políticos e economicamente organizados."

Grande historiador... e não nos fala das cidades, das estradas, dos

portos, dos monumentos e dos palácios que os portugueses encontraram

nesses reinos.

Simples esquecimento. Mas o historiador irá, certamente, reparar esse

lapso, apresentando-nos a lista e o programa de todas as obras de arte

existentes em tais reinos "políticos e economicamente organizados."

Cá os esperamos. Todos nós o esperamos ...

E tudo isto para atacar o "colonialismo", o grande
monstro contra o

qual se afadigam no combate como D. Quixote contra moinhos de vento.

Mas a loucura do nobre manchego aplacava-se com o bom senso de

Sancho Pança, e a destes iconoclastados do
monstro não encontra sossego

na razão.

Todo este desaforo diário tem a finalidade de destruir tudo o que

fizeram os portugueses durante 500 anos que os econoclastas do
"monstro"

apresentam como uma infâmia descarregada sobre as populações nativas que,

doridas por ela, hão-de necessariamente pretender ressarcir-se em ódio contra

os descendentes dos primeiros colonizadores.

— 22 —

É a desarmonia, a luta, o ódio crescente que esta escumalha da

imprensa pretende desenvolver entre negros e brancos.

Note-se que a escola do ódio contra o homem branco não é dirigida

pelo homem negro, mas sim por brancos que perderam a dignidade dos seres

humanos que pretendem e defendem a harmonia entre as raças.

Se esta escola triunfasse seria o caos e a desordem no mundo.

Se esta escola triunfasse, o homem branco ver-se-ia na necessidade

de confinar-se na Europa, e daqui principiar uma luta contra tudo que não fosse

europeu, expulsando dela todas as pessoas de cor e fazendo refluir para a

África todos os africanos, incluindo mais de 20 milhões de negros que hoje são

naturais da América do Norte.

Haveria então uma total separação, um verdadeiro
apartheid.

Para evitar isto é urgente barrar o caminho aos transviados de má

índole que abjuraram hoje de uma pátria e que amanhã abjurariam daquela que

os acolhesse.

A RAZÃO DO PRESENTE PANFLETO

Imediatamente a seguir ao 25 de Abril vislumbrei que a incompreensão,

ignorância, a inveja, os desejos refreados e a ambição desmedida de

pequenos seres humanos, sairiam dos seus calços, e apressei-me a escrever

na imprensa o que me parecia conveniente em benefício da harmonia social.

Aproveitando-me da liberdade de imprensa que a Junta de Salvação

Nacional havia proclamado, escrevi umas linhas para A Tribuna que, embora

retardando a sua publicação, as deu, finalmente a lume.

Em artigos de tamanho limitado eu pretendia doutrinar, diariamente,

os princípios da democracia em liberdade.

Logo que saiu o primeiro artigo enviei outro, e passados três ou

quatro dias, ainda não tinha vindo à luz nas colunas do jornal.

Aborrecido por ver este jornal cheio de prosa sem nexo, sem ideias e

sem interesse público, atribuí a falta da publicação da minha humilde prosa ao

facto de se encontrarem ainda à frente deste órgão da imprensa, elementos do

regime fascista deposto.

Aproveitei a circunstância de ver publicada em A
Tribuna uma carta

torpe, acompanhada da fotografia do seu autor, escrevi uma carta ao seu

director, na qual pedia a devolução do meu manuscrito, ao mesmo tempo que

solicitava a publicação da referida carta onde apelava para a realização de um

inquérito sobre os factos apontados na carta torpe que não deveria ter sido

publicada em jornal responsável.

Entretanto, os elementos fascistas saíram de A Tribuna, e pelas

pessoas que àquelas sucederam foi-nos devolvida não só o original da carta

como a fotocópia do artigo que não foi publicado.

A porta de A Tribuna ficou-nos assim, vedada ; mas com a saída dos

elementos do regime fascista do Notícias, pretendi colaborar neste jornal em

defesa dos princípios proclamados pela Junta de Salvação

— 23 —

Nacional, e ao seu novo director apresentei um pequeno artigo que também

não foi publicado.

Só me apercebi, poucos dias depois, da razão deste jornal me fechar

também a porta.

E esta razão encontra-se na sua orientação anti-portuguesa e prófrelimista.

A defesa do homem branco, a defesa dos portugueses, a defesa da

verdade e da harmonia entre brancos e negros fora agora impedida nos jornais

de Lourenço Marques como sucede actualmente no Notícias da Beira.

Hoje somente os ataques a Portugal e aos portugueses, quer de uma

forma clara e aberta, quer sob a forma de ataque ao colonialismo, são

permitidos, nesta imprensa.

Foi por isto que resolvi publicar o presente panfleto em defesa dos

portugueses e da harmonia entre brancos e negros, que será seguido por

outros com o mesmo fim, enquanto eu tiver forças para isso.

COMO SE DEVE AGIR

A massa populacional que alimenta com o seu dinheiro a imprensa

frelimista sente na sua alma a grande dor de se ver aí amesquinhada e

torturada pelas mentiras nela publicadas, sem poder desafrontar-se.

Como reagir então ?

Não comprando essa imprensa.

Todavia essa massa não tem outra imprensa para satisfazer o hábito

de tomar conhecimento do que vai pelo mundo : mas tal hábito pode remediarse

parcialmente se for adoptada a táctica que os democratas adoptaram em

relação ao jornal "O Século."

Na revolução de Fevereiro de 1927, "O Século" atacou-nos, insultounos

e caluniou-nos durante os dias da revolução.

Chegou a inventar a história de havermos hasteado uma bandeira

negra que nunca existiu e que não podia ter qualquer significado. Mas foi certo

que a invenção da bandeira negra perturbou emocionalmente grande parte da

população.

Na derrota, "O Século", o jornal de maior circulação então no país,

não nos poupou.

Nós não tínhamos defesa contra as infâmias de "O Século" ; e por isto

arranjamos comissões que deveriam multiplicar-se em cadeia para instar os

democratas para que não comprassem este jornal ; e nos lugares onde não

pudesse evitar-se a sua leitura por força do hábito, deveria o jornal ser

comprado por uma só pessoa em cada dez, e o comprador facilitaria a sua

leitura aos 9 restantes.

Nos primeiros tempos pareceu-nos que a nossa acção não produzia o

efeito desejado ; mas as comissões multiplicaram-se qual bola de neve e

passados 6 meses já principiava a notar-se eficácia na boicotagem, e "O

Século" passou do jornal de maior expansão em Portugal a uma folheca sem

leitores para o manter.

— 24 —

A empresa de O Século arruinou-se e há cerca de um ano teve de

alienar o torpe jornal que dava um prejuízo arruinador.

Façam agora os verdadeiros democratas o mesmo aos jornais

frelimistas, e por este meio deixarão de sentir vómitos ao mesmo tempo que

prestarão um belo serviço a brancos e negros.

Todos à uma : o boicote a esta imprensa !

MUITO GRAVE

Toda a imprensa frelimista é inimiga dos portugueses e de Portugal.

Não importa o desmentido a esta afirmação, pois todas as pessoas que tenham

os miolos no seu lugar sabem que esta afirmação é verdadeira. É uma

imprensa caluniosa e sem escrúpulos ; basta ler os muitos desmentidos que

aparecem das vítimas das suas calúnias.

A falta de escrúpulos é tão clara e evidente que ela, essa imprensa e

os seus colaboradores, se encarniça contra o fascismo quando toda ela e todos

eles são autênticos fascistas.

Todos os estados negros, que se criaram após a grande guerra,

admitem a existência de um só partido — o único —, que é a característica

principal do fascismo.

Esta imprensa e os neo-democratas defendem para Moçambique a

existência de um só partido : a Frelimo.

Esta imprensa e os neo-democratas defendem a política de um

homem, um voto ;
mas todos eles querem : todos os votos para um só ; o

partido único.

Eles apregoam a necessidade do diálogo, mas fecham-nos a porta

para dialogarmos na imprensa.

Todos eles querem impor-nos Samora Machel, ornando de qualidades

que não tem o
ex-ajudante de enfermeiro, como fizeram os Nazis que

vestiram de galas o cabo Hitler:

Eles dizem que 10 ou 12 anos de guerra provam que a Frelimo tem o

apoio de todos os moçambicanos, pois se não tivesse esse apoio não poderia a

mesma Frelimo manter-se em luta durante tanto tempo.

Trata-se de um argumento
puramente fascista para impedir a prova

por um
referendum.

Se o argumento fosse válido o fascismo ficava justificado, pois

Mussolini, Hitler, Franco e Salazar diriam, e disseram, que estiveram no poder

durante muito tempo porque o povo assim o quis.

Mas os transviados, que perderam toda a noção da vergonha e da

dignidade, gritam contra o
referendum, gritam contra a livre manifestação da

vontade popular, porque, fizeram os cálculos e sabem que esta não os

favorece.

Quem assim comete o crime de sofisticar a verdade e a realidade

para impor um governo que seria a desgraça de todos os moçambicanos,

brancos e negros, está apto para cometer todos os crimes.

— 25 —

Está apto para trair ; está apto para assassinar, está apto para matar

e fugir; está apto para incendiar e atribuir aos outros a autoria do incêndio.

Assim fizeram os Hitlerianos, incendiando o
parlamento alemão, para

a seguir lançarem a vaga do genocídio contra os comunistas a quem atribuíram

a autoria do incêndio.

Ainda as labaredas do parlamento alemão não haviam sido extintas já

milhares de comunistas haviam sido chacinados.

Em toda a parte os fascistas simulam ataques dos adversários para

lançarem sobre estes as turbas ensandecidas.

Na noite de 23 de Junho rebentou uma granada que danificou o

automóvel do frelimista Dr. Pereira Leite.

No dia seguinte o "Notícias" relatava, sob o título de "Acto de

Terrorismo" dizendo :

"Tratou-se de verdadeiro acto de terrorismo que, desta vez,

ninguém poderá pretender atribuir à Frelimo mas antes a um

"aviso" das forças reaccionárias que são hoje o inimigo número

um do povo moçambicano."

No dia seguinte, o mesmo órgão da Frelimo, num cabeçalho a

vermelho e a três colunas, relatava outro atentado nos termos seguintes :

"Pelo seu Trabalho Em Defesa do Povo Moçambicano,, —

Nosso camarada Guilherme S. Pereira agredido por

desconhecidos

"Aquele nosso camarada foi posteriormente encontrado, pelas 23 h

40, sobre o passeio, no cruzamento das Avenidas Manuel de Arriaga e Afonso

de Albuquerque, por António José Gomes que casualmente passava naquele

local.

Este, auxiliado por Tito António Gomes Soares, Abel Lourenço e

António Monteiro Martins, transportou Guilherme da Silva Pereira ao Hospital

onde, depois de assistido, ficou em observação."

DOIS TELEFONEMAS

"Pouco depois das 23,15 horas, a nossa Redacção foi prevenida,

telefonicamente, pelo Snr. Mário Silva, que um grupo de três indivíduos

agredira um outro, que ia entrar no seu automóvel, na esquina das Avenidas 24

de Julho e Anchieta.

O informador acrescentou que supunha ter a vítima sido transportada

ao hospital, pois fora metida num automóvel particular.

Logo a seguir, outro telefonema, este anónimo, dava-nos a conhecer

que "o jornalista Guilherme da Silva Pereira já havia pago o seu trabalho de

defesa do povo moçambicano."

O teor do primeiro telefonema dando conta do lugar da agressão e do

hipotético transporte para o hospital, conjugado com o local onde

— 26 —

foi encontrado o nosso camarada, faz admitir que os agressores o teriam

conduzido para outro sítio, talvez não contentes com a primeira agressão,

tendo-o depois abandonado, onde foi encontrado."

"O NOSSO APELO"

Em pouco mais de 24 horas, quatro elementos deste jornal foram alvo

de agressões, ao fim e ao cabo, por motivos semelhantes já que a preocupação

de quem trabalha nesta casa é o de informar, esclarecendo e sempre que

necessário, formando também conscientes da obrigação e da responsabilidade

que nos cabe, no caminho para a paz que todos devemos desejar.

Infelizmente parece haver quem não queira compreender e julgue que

num mundo onde cada vez mais se procura a fraternidade e o diálogo entre

homens, só a violência pode imperar.

Não foi para isso que o movimento de 25 de Abril (sem derrame de

sangue, salvo o provocado pela Pide/D.G.S.) restituiu ao povo português a

liberdade que alguns nunca haviam possuído. E aqueles que continuam a

preferir a violência têm que ser detectados e entregues às autoridades, como

criminosos de delito comum.

Para esses não poderá de facto haver liberdade, pois ela não cabe

naqueles que preferem a violência e albergam o ódio.

O nosso apelo, pois, às entidades responsáveis pela governação no

sentido que sejam tomadas as indispensáveis medidas de protecção para uma

população que, acima de tudo, seja qual for a cor, deseja, na sua grande

maioria, paz, amor e fraternidade.

Há que actuar com energia para impedir que o inimigo comum

consiga a desunião que, pelos vistos, pretende alcançar, mesmo à força."

Assim falou o órgão da Frelimo, "Notícias" nos dias 24 e 25 de Junho.

Mas logo no dia 27 do mesmo mês, o referido órgão da Frelimo, apresentou na

sua primeira página o seguinte :

Barbaramente agredida a esposa do Dr. Sousa Leite.

"Ontem, cerca das 23 horas, foi barbaramente agredida por dois

indivíduos brancos, a esposa do Dr. Sousa Leite, advogado de Lourenço

Marques, presentemente ligado ao corpo jurídico que tem estado a proceder a

investigações sobre os crimes cometidos pela ex-Pide/D.G.S. e dirigente da

Associação do Pessoal do Instituto de Crédito, que presentemente efectua um

movimento que pretende a demissão da administração do I. C. M."

COMO OCORREU A AGRESSÃO

"A esposa do Dr. Sousa Leite encontrava-se no escritório do seu

marido, onde ultimamente têm pernoitado, quando bateram à porta. Por estar já

deitada e recear abrir a porta, perguntou quem era e o que pretendiam, a que

lhe foi respondido que tinham uns documentos muito importantes para entregar

ao advogado, documentos esses que deveriam forçosamente ser entregues

naquela altura.

— 27 —

Ao abrir a porta a senhora foi imediatamente agredida na fronte,

sendo seguidamente espancada pelos dois indivíduos, que a deixaram

prostrada e que, antes de se retirarem deixaram como último aviso a seguinte

frase :
diz ao teu marido que comece a ter juízo."

SOCORRO PRESTADO

"Tendo conseguido descer e tomado um taxi, foi transportada ao

hospital, onde recebeu tratamento às inúmeras escoriações que apresentava

na cabeça, tronco e braços."

O quadro aí fica : mal pintado. É um quadro irreconhecível. O pintor

da coutada é muito mau artista. É um quadro irreal ; ninguém o pode tomar por

verdadeiro.

E se desta vez não apareceu um desmentido, terá sido, assim o

supomos, por a Senhora, aí referida, ter ficado enojada de uma tal imprensa, e,

por esta razão, repelir todo o contacto com ela.

Agora voltemos ao dramático crime cometido contra o jornalista

Guilherme da Silva Pereira cujo cadáver andou a ser passeado por três

assassinos, já que não eram da Frelimo, do ângulo da Avenida Manuel da

Arriaga e da Avenida Afonso de Albuquerque para o ângulo da Avenida 24 de

Julho com a Anchieta, e vice versa, e daquele primeiro ângulo transportado

para o hospital por vários indivíduos.

Aqui já mete muita gente : há várias testemunhas.

Pois agora, que há várias testemunhas, eu vou dar a desagradável

notícia :

É mentira! ninguém agrediu o Sr. Guilherme da Silva Pereira.

É mentira
! ! !

Trata-se de uma ignóbil mentira do órgão da Frelimo para criar no

povo a convicção da existência de grupos armados, dos reaccionários, para

impedirem a defesa do povo soberano de Moçambique.

E é para acirrar os ânimos de pretos contra brancos que o órgão da

Frelimo fabricou vis mentiras, indo ao ponto de escrever :

"E aqueles que continuarem a preferir a violência têm que

ser detetados e entregues às autoridades, como criminosos de

delito comum."

Realmente nota-se a falta de autoridade.

Se a houvesse, já estes jornais freliminos teriam sido detectados por

ela.

Entremos agora na apreciação do atentado contra o Dr. Pereira Leite.

Este tem, na verdade, concitado contra si a má vontade geral das

pessoas não frelimistas, e se esta má vontade se volveu em ódio nalguns

espíritos, não foi com base em tal ódio que foi praticado o atentado.

É visível para toda a gente que com o atentado não se pretendeu

liquidar, ou até molestar, a pessoa física do Dr. Pereira Leite. Ele mesmo o

reconheceu imediatamente.

— 28 —

Na verdade a explosão de uma granada ofensiva não acarreta perigo

para a pessoa colocada a 10 metros de distância do ponto da sua rebentação ;

e os autores do atentado tiveram o cuidado de ligar à espoleta da granada,

fixada em determinado ponto, um fio com mais de 10 metros de comprimento

fixado ao automóvel.

Desta maneira, a explosão dar-se-ia depois do automóvel haver -se

distanciado 10 metros ou mais da referida granada.

Se a armadilha não era para matar, não se aceita que fosse para

brincar, porque com coisas destas ninguém quer brincadeiras.

O acto, teve qualquer fim. E qual seria este ?

Necessariamente o fim teria de ser o de propaganda.

Ora a Frelimo não andava a caminho de Moscou ou de Pequim

somente para se adestrar no manejo de armas de fogo ; ela aí receberia, mais

do que a aprendizagem dos manejos de armas de fogo, o manejo da arma

psicológica.

E no caso de que aqui tratamos, o efeito psicológico dar-se-ia sobre o

Dr. Pereira Leite que mais se vincularia à Frelimo e mais se distanciaria dos

adversários desta, e sobre a massa do povo ignorante, que culpando estes,

avolumaria contra eles a sua má vontade, quiçá o seu ódio.

Assim, só a Frelimo teria interesse no atentado ao Dr. Pereira Leite,

sem qualquer participação deste, para o convencer da maldade dos adversários

daquela o que não se daria se ele conhecesse a proveniência dos autores do

atentado.

Assim quando o órgão frelimista sacode a água do capote da Frelimo

dizendo :

"Desta vez ninguém poderá pretender atribuir à Frelimo"
o

acto terrorista,
eu levanto-me para afirmar: eu penso que foram os frelimistas

os seus autores porque foi um acto conveniente à Frelimo, e porque, tratandose

de um acto fascista, está o mesmo inserido nos seus métodos e na sua

orgânica.

É necessário não esquecer o atentado contra Guilherme da Silva

Pereira, o qual não existiu como é do conhecimento de muitas pessoas, sem

que o Notícias tenha publicado, com os mesmos caracteres vermelhos, ou de

qualquer outra cor, um desmentido para que os seus milhares de leitores

deixassem de manter-se no ódio criado pelas falsidades que publicou sobre o

assunto.

Mas se muitas pessoas conhecem a verdade, há milhares delas que a

ignoram, e é para manter esta ignorância que o fascista órgão da Frelimo

passou uma esponja sobre o caso e sem pôr os seus leitores ao corrente das

melhoras de Guilherme da Silva Pereira depois da grave doença que teria sido

produzida pelas muitas pancadas que o deixaram em coma ...

É assim o fascismo ; é assim a Frelimo ; é assim a sua imprensa. Por

isso eu grito como tenho gritado há 50 anos.

Abaixo o fascismo.! Viva a Democracia !

— 29 —

ARTIGOS QUE A IMPRENSA FASCISTA RECUSOU PUBLICAR

A seguir inserem-se os artigos que a imprensa fascista, órgão da

Frelimo, recusou publicar.

Todavia, o primeiro foi publicado em A Tribuna ; mas como neste

artigo não veio publicada a sua parte final, esta foi inserida no segundo artigo

que o mesmo jornal não quis nas suas colunas razão porque o mesmo se

transcreve agora.

PRIMEIRO ARTIGO

A NOSSA VIDA E O NOSSO FUTURO (1)

Fui o primeiro homem que a ditadura Salazariana arremessou para

mais longe da Metrópole : para Moçambique.

Até então os inconformistas eram deportados para Angola.

Vim num barco somente ocupado por deportados, quatrocentos e tal

ficaram em Luanda e nesta cidade fiquei preso enquanto se esperava outro

barco que me trouxesse para aqui.

Em Lourenço Marques fiquei e aqui casei e aqui me nasceu o

primeiro filho.

Durante os quarenta anos que aqui vivi afeiçoei-me de tal modo a

esta terra e a esta cidade que os portugueses fizeram, que nela vejo a mais

linda cidade do mundo. Não há outra igual.

Foram os portugueses que a construíram pelas suas mãos, pelos

seus cérebros e com a sua alma. Houve também braços aborígenes a construíla,

mas estes não a amalgamaram com o seu espírito nem com o seu coração.

Na concepção marxista da vida esta terra é dos portugueses porque a

terra é de quem a trabalha.

Quando os portugueses a ocuparam ela era "res nulius" porque

ninguém a habitava. Só depois da ocupação pelos portugueses é que os

aborígenes começaram a aparecer e foram chegando cada vez mais atraídos

pelas facilidades de vida que os portugueses lhe concediam, de pontos

distantes e dispersos.

Assim sucedeu nos diversos locais de Moçambique até se formar o

grande país que hoje existe.

Criámos amor à terra e aos aborígenes como nenhuma outra nação

colonizadora criou.

Durante muito tempo fomos escarnecidos pelas potêcias colonizadoras

pela importância social que os portugueses concediam aos negros,

Africanos e Indianos faziam parte da nossa vida social e política, sendo alguns

professores, magistrados, funcionários públicos graduados, deputados e até

ministros. Isto significa que Portugal era de todos e para todos.

— 30 —

Ainda em 1924, no tempo da República, o Governo de Álvaro de

Castro teve de reagir energicamente quando o governo inglês pretendeu pôr

embaraços ao recebimento do Dr. Alberto Xavier, como director-Geral da

Fazenda Pública de Portugal, por ser indiano.

Foram meus condiscípulos universitários muitos negros africanos e

indianos e todos nos tratávamos com igual camaradagem.

Mário Domingues, então jornalista da "Batalha" era meu amigo e João

de Castro, negro de S. Tomé e deputado em representação desta ilha, tomava

diariamente café comigo.

Os portugueses foram assim sempre e por isso considerávamos o

território de África e da índia como fazendo parte da nossa Nação, e os seus

naturais como cidadãos portugueses, nossos irmãos.

Foi em virtude desse sentimento que a República quis bater-se e

bateu-se mesmo, na Primeira Grande Guerra contra potências que cobiçavam

os territórios africanos que faziam parte integrante da Nação Portuguesa.

Mas sucedeu que um indivíduo que tinha o nome de António de

Oliveira Salazar se apoderou do Governo de Portugal e escravizou todo o povo

português do continente europeu e do ultramar. Durante quase cincoenta anos

todos os portugueses sem distinção de cor ou raça ficaram reduzidos a

autênticos párias.

Quando Cunha Leal como administrador do Banco de Angola,

pretendeu que a metrópole olhasse com inteligência os problemas ultramarinos

foi demitido e expulso do País. Tal indivíduo, dito Salazar, proibia que se

pretendesse fazer progredir o ultramar. Aqui, como na Metrópole, as pessoas

não tinham o direito de intervir na administração pública. Elas não podiam

escolher os seus representantes para a vida municipal, nem para o Conselho

Legislativo e ainda, quando mais tarde ele se viu forçado a arranjar um

parlamento, elas não podiam escolher os seus representantes à Assembleia

Nacional.

Isto fez com que os naturais ou residentes nas colónias se sentissem

desligados da Pátria-Mãe.

Quando Marcelo Caetano sucedeu no poder ao homem mais

pernicioso de toda a história de Portugal, não teve a coragem de desfazer-se do

passado de que ele fora em parte cúmplice e vítima, por pressão de um

mentecapto que fora o criado mais servil e abjecto do desaparecido tirano, e

resolveu proclamar a política da continuidade.

Numa carta que eu então escrevi a um amigo íntimo de Marcelo

Caetano, a qual lhe foi mostrada por aquele, mencionava eu então o erro de

uma tal política, e da necessidade que havia de ele se desfazer do imbecil que

teimava em declarar que o seu perdido senhor tinha sido o maior talento dos

últimos 200 anos.

Liberto o país do odiado tirano, o povo aclamava Marcelo Caetano por

onde este passava ; e na referida carta dizia eu que as aclamações do povo

não eram para ele Marcelo que este desconhecia dantes mas sim por se ver

livre do seu pernicioso inimigo. E acrescentava : o povo

— 31 —

aclamaria quem quer que fosse que tivesse tomado o lugar do seu pior inimigo,

na esperança de que o sucessor seria sempre, de qualquer modo menos mau

do que ele fora.

Marcelo, que lera a minha carta que nem sequer lhe fora dirigida, não

a tomou em consideração e antes seguiu a política de continuidade, de

inspiração do insignificante serventuário que os portugueses tiveram de

suportar longamente por imposição do patrão dele.

Independentemente dos crimes e dos desacertos do Santa Comba,

bastaria a humilhação feita ao povo português de o fazer aceitar como seu

representante máximo o cortador de fitas para justificar uma sublevação

nacional.

Todavia Marcelo Caetano, seguindo a política de continuidade,

mantinha essa humilhação, não fazia mais do que justificar, redobradamente a

sublevação.

SEGUNDO ARTIGO

A
NOSSA VIDA E NOSSO FUTURO(2)

No meu artigo do dia 21 do corrente não veio publicado, sem culpa

deste jornal, a sua parte final que ora se transcreve :

"Esta veio de Lisboa, (sublevação) da metrópole portuguesa,

para a qual portugueses de todas as partes apelavam.

E quanto aos povos africanos e aos portugueses residentes

em terras d'África, foi esta a última vez que puderam pôr as suas

esperanças em Lisboa.

Daqui em diante, os seus anseios de liberdade e do seu

viver com direitos, não poderão ser mitigados com a esperança

na capital portuguesa.

E porquê ? Eu explico.

Porque até aqui os desatinos e desmandos das autoridades locais ou

das autoridades metropolitanas, que violassem os direitos moçambicanos ou

somente os especiais dos aborígenes, eram criticados e combatido por todos

os espíritos livres, o que sucedeu no caso das deportações para S. Tomé, no

caso da obrigatoriedade da cultura do algodão e em muitos outros quanto a

negros ; e no caso das limitações industriais quanto a negros e brancos.

Sobre direitos políticos todos sofremos : brancos e negros.

Mas todos esperávamos aqui que Lisboa libertasse a metrópole da

tirania fascista para que aqui nos libertássemos também dela e assim sucedeu.

A liberdade inundou todos os corações ; de brancos e negros.

Asseguro, pelo meu conhecimento pessoal, que os metropolitanos e

que na metrópole residem, são mais receptivos à violação dos direitos da

massa branca. E isto por suporem eles que a massa negra vive mais

desprotegida que a branca.

— 32 —

Tudo o que se disser contra isto não representa a verdade.

Lembro-me que um dia, quando eu era aluno da Faculdade de Direito

de Lisboa, fui assistir a um comício de jovens literatos contra os bonzos da

literatura, e vi levantar-se a assistência, gritando freneticamente contra um

brincalhão que fez um
atchim quando apareceu no palco o meu amigo Mário

Domingues que era um dos oradores por parte dos novos.

O caso toma grande relevo quando se comparar esta atitude a favor

de um negro com as gargalhadas que a multidão soltava quando jovens

oradores brancos eram assobiados e varados por apartes, alguns até

insolentes.

A população portuguesa sempre teve um carinho especial pelos

nossos compatriotas negros.

Quando a Dr. Joana Semião repete a sua qualidade de negra para

mostrar que não usufruía os iguais direitos concedidos aos brancos, não é

exacta.

Mesmo quando ela diz que não foi aceite em certo colégio por ser

negra, deveria primeiro ter averiguado se nesse colégio entrava toda e qualquer

branca.

A descriminação que ela encontrou nesse colégio era a mesma que

encontraria uma rapariga branca que não fizesse parte da categoria social

desejável nesse colégio.

Também aqui se fala muito na cidade do caniço existente nos

arredores de Lourenço Marques como sendo um produto de discriminação por

parte do homem branco o que representa a desvirtuação da realidade.

A cidade do caniço aqui, chama-se bairro da lata em Lisboa, onde

existem vários bairros destes, os quais existem da mesma maneira em

Londres, em Paris, e em todas as cidades do mundo, e não deixarão de existir

em Lourenço Marques quando esta cidade for governada pelo homem negro.

Pois bem : quando este governar Moçambique sucederá o mesmo

que tem sucedido em todos os Estados negros :
a eliminação da liberdade

individual.

Todos os governantes negros têm a mentalidade fascista, como a

tinha Salazar, nenhum deles consente o diálogo ; nenhum deles permite a

formação de partidos políticos, pois todos eles instituíram o partido único.

E quando isso suceder aqui, deixará de existir Lisboa como esperança

de resgate para brancos ou para pretos.

Carta à Tribuna

SENHOR DIRECTOR DE A TRIBUNA

No maré - magnum de preocupações e inconsciência que se seguiu à

revolução de 25 de Abril tive eu a estulta pretensão de lançar um raio de luz

que conduzisse os espíritos preocupados, à calma e consequentemente a um

bom entendimento entre todas as etnias que povoam o

— 33 —

território de Moçambique. E para isso propus-me escrever uma série de

artigos e à falta de uma boa imprensa escolhi a Tribuna para publicá-los.

O primeiro artigo que para esse jornal enviei foi publicado com

bastante atrazo devido à falta de espaço segundo aí me informaram.

O segundo que para aí enviei há mais de uma semana e que deveria

ser publicado imediatamente para que os leitores seguissem a sequência do

meu pensamento, ainda não foi publicado.

Por falta de espaço ?

Não aceito esta desculpa já que a Tribuna aparece recheada de prosa

desconexa, impertinente, perigosa, insolente, provocadora, e contrária ao

espírito da revolução.

Para prova do que digo basta citar a carta de José Baltazar da Costa

Changanga, emoldurada com o seu retrato. Na verdade trata-se de uma carta

raivosa, que apela para uma reivindita selvagem nos torpes factos que revela,

além de denotar a irresponsabilidade do seu autor.

Os factos macabros revelados na referida carta são de pôr os cabelos

em pé às pessoas, por mais calmas que elas sejam.

São verdadeiros esses factos ?

Não nos parece que o sejam, pois a falta de sincronização entre o

tempo indicado na carta e o tempo em que foram revelados por outras pessoas,

conduz-nos a crer na efabulação de fantasias para desacreditar o homem

português que, para o autor dela, é sempre o mesmo, quer seja democrata

quer seja fascista.

No entanto o referido Changonga, que se proclama o primeiro que

começou a revolução de Tete, razão porque foi preso, não menciona quaisquer

maus tratos que lhe hajam sido feitos.

Ainda o mesmo Changonga fala da República Democrática entre 1917

e 1928, o que mostra a sua irresponsabilidade naquilo que diz e escreve.

Foi pois à carta de um irresponsável que a "A Tribuna" deu o seu

espaço para não poder inserir nas suas colunas o pequeno artigo que para

publicar lhe enviei ; e isto obriga-me a pedir a V. Exa. o original que mandei

para ser publicado pois não desejo tomar o lugar aos irresponsáveis que em A

Tribuna procuram instaurar o caos e a desgraça humana.

Mas senão desejo aproveitar-me mais de A Tribuna pretendo que

nela seja publicada esta carta que dirige um apelo à autoridade portuguesa se

é que ela existe, mas que deveria ainda existir por todas as razões e mais uma.

APELO

Apelo para que a autoridade faça imediatamente um inquérito sobre

os factos mencionados na carta do Changonga, levando-o urgentemente aos

locais onde nela se indica terem sido praticados ; E que o Changonga seja

acompanhado por brancos partidários da Frelimo, com a jornalista Maria do

Céu, e negros também partidários da Frelimo, e

— 34 —

que aí, com a presença de agentes da autoridade, se proceda a rigorosas

investigações, para, concluídas estas, se proceder contra os autores, dos

crimes que se houverem por verificados ou contra o Changonga onde ele não

fizer essa prova.

Mas que isto seja tão depressa quanto possível a fim de evitar-se a

fabricação de provas falsas.

Também o Changonga deve explicar a razão por que, tendo sido

preso pelo facto gravíssimo de haver sido o primeiro que começou a revolução

de Tete,
ainda tem unhas.

E isto é de admirar já que o Changonga diz que os administrativos

enforcavam os "pretos, dependurando-os do tecto" "enterravam vivos os presos

no calabouço" e "mandavam destapar o caixão e davam bofetadas nas faces

do cadáver."

E quanto à Pide diz o Changonga que os seus agentes "começavam

a amputar ao preso dedo por dedo, mãos, pés, olhos, até à morte."

É pois, pertinente a pergunta : porque é que o Changonga ainda tem

unhas ?

Que sujestão ou peita empregou para que a Pide o deixasse com

unhas ?

A Pide nunca praticou uma boa acção gratuitamente. O que foi que o

Changonga entregou à Pide para conservar incólume o seu físico durante os

seus três anos de prisão ? Tudo isto tem que ser averiguado para castigo dos

autores dos repugnantes crimes apontados, ou para castigar o Changonga se

ele não provar a realidade desses crimes.

Lourenço Marques, 27-5-74

Neves Anacleto

Artigo entregue ao Notícias

SUPREMA TRISTEZA

Os jornais de 26 de Abril de 1974 publicavam a
proclamação da

Junta de Salvação Nacional na qual se dizia que esta assumia, perante o país,

o compromisso de

"Garantir a sobrevivência da Nação como pátria soberana,

no seu todo pluricontinental."

Todavia, no dia 16 de Maio do corrente, os mesmos jornais publicavam

o discurso proferido pelo General Spínola no acto da sua investidura

como Chefe do Estado, no qual foi afirmado que

"o destino do Ultramar Português terá de ser democraticamente

decidido por todos aqueles que àquela terra

chamam sua. Haverá que deixar-lhes inteira liberdade de

decisão."

— 35 —

É evidente o desacordo entre a sobrevivência da Nação como pátria

soberana, no seu todo piuricontinental, com a de consentir que a sobrevivência

com uma das partes do todo dependa da exclusiva vontade desta.

A diferença entre a garantia dada pela Junta Nacional de Salvação

Pública e a declaração de livre escolha de uma das partes, foi gerada pelas

manifestações de vontade dos homens que emergiram no tablado político nos

vinte dias que mediaram entre a primeira e a segunda declaração.

Todavia o Chefe do Estado convidou os bandos de guerrilheiros a

entrarem livremente em território português para estruturarem os seus partidos

políticos e prepararem a consciência dos cidadãos para uma independência

sem pressões acrescentando ainda que o seu regresso para uma actividade

livremente desenvolvida "será a prova cabal do seu idealismo e o mais útil

contributo para o pleno esclarecimento e a perfeita consciencialização dos

povos africanos, em ordem a uma opção final conscientemente promovida e

escrupulosamente respeitada."

Tudo isto se disse na admissão de que os guerrilheiros actuavam por

força de um idealismo isento de ambições pessoais em favor dos povos que

diziam representar.

Mas que tal idealismo não existia provaram-no os guerrilheiros com a

resposta que deram ao generoso oferecimento

Todos eles responderam que queriam a entrega total e imediata sem

condições, o que representava pura e simplesmente a rendição de um exército

que se conserva em armas sem ser vencido

Embora a resposta dos guerrilheiros fosse a prova claríssima de que

não os animava um ideal puro a favor dos povos que eles diziam oprimidos

mas sim a ambição incontida e desvairada do poder pessoal, portugueses

houve que aplaudiram a sua atitude e com esta se identificaram pelas formas

mais variadas e inconscientes.

Refluindo ao seu antigo e dezacisado
Slogan de "acabe-se com a

guerra"
esses portugueses repetiram-no agora, o que pressionou o nosso

governo a ordenar que as nossas tropas ensarilhassem as armas, não obstante

esses guerrilheiros gritarem alto e em bom som que os seus ataques

prosseguiriam enquanto a rendição não fosse mais real do que a própria

realidade.

E contra um exército de braços cruzados os guerrilheiros desferem os

seus golpes que não ocultam e antes os proclamam, e que muitos portugueses

atribuem a entidades imaginárias no intuito evidente de justificarem a sua

defecção de amor pátrio.

O pior de tudo isto foi o ambiente criado no meio governamental

português por aqueles que estavam previamente comprometidos com os

dirigentes dos movimentos de guerrilheiros, o que levou esses meios ao ponto

inacreditável de descerem à imploração de tréguas. E foi assim que vimos sair

da primeira sessão do Governo Provisório, directamente

— 36 —

para
Dacar, o nosso ministro dos negócios externos num avião inimigo que cá

fora já o esperava para o efeito pré-combinado.

Ao mesmo tempo eram enviados emissários para toda a parte onde

quer que se encontrassem os chefes das guerrilhas, e não faltariam sondagens

aos governos que sustentavam e sustentam clara e abertamente as guerrilhas

contra a autoridade portuguesa.

A profundidade a que descemos explica que os ditadores do Congo,

da Tanzânia e da Zâmbia tenham reunido em Lusaca para escolherem o

destino a dar aos nossos territórios de Angola e Moçambique. São pois estes

ditadores que dispõem do futuro de Angola e de Moçambique, e não o povo

angolano ou o povo moçambicano, cuja livre escolha lhes é assim roubada.

Mas que chefes guerrilheiros são estes que depõem nas mãos de

estrangeiros os destinos dos povos que dizem representar ?

Quanto aos da Frelimo, que é o que mais interessa ao povo de

Moçambique, falaremos no próximo artigo.

Neves Anacleto

ÚLTIMA HORA

SINTOMÁTICO

O presente trabalho já estava na tipografia quando, em 3-7-74,
o

grupo fascista
que se intitula democratas de Moçambique publicou no Notícias

a sua Folha Informativa n.° 35, e nela se diz :

"a Frente Nacional de Libertação de Moçambique (Frelimo)

afirmava muito antes de se terem verificado quaisquer actos de

terrorismo fascista ou atentados no seu órgão oficial — a Voz da

Revolução — Janeiro a Abril de 1974.

"Devemos no entanto estar particularmente atentos

à multiplicação de crimes contra a população africana e

europeia que os colonialistas vão procurar atribuir à

Frelimo como já tentaram anteriormente.

E os fascistas continuam na sua folha informativa :

.. ou terá a Frelimo nas suas fileiras
videntes que tão certeiramente

adivinham
as intenções dos elementos reaccionários que

tentam sabotar o trabalho levado a cabo depois de 25 de Abril com

vista à Paz" ?

Se tem videntes, a Frelimo ? Pois claro que tem. Antes do 25 de Abril já esses

videntes falavam nos vários atentados que se dariam.

Isto só de
videntes... Videntes à Dr. Goebels.

O nazi Dr. Goebels adivinhava os atentados a grande distância.

— 37 —

Não houve no mundo uma máquina como a do Dr. Goebels. É agora a Frelimo

que está na posse dessa máquina. Muito antes dos atentados se realizarem já a

Frelimo como o Dr. Goebels da propaganda nazi, os tem no seu programa.

Quem ligou a granada explosiva ao automóvel do Dr. Pereira Leite?

Digam quem foi, senhores fascistas . . .

Digam . .. pois, já que todo o povo ficou a saber, pela vossa

confissão, a proveniência da granada.

— 38 —

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