sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Deolindas Há Muitas….Ou As Várias Lutas de Classe!

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“Numa entrevista à VOA, Sakala afirma que o Governo "não permite que se realizem actividades políticas" nas regiões do interior, mais distantes dos centros urbanos. O  comandante da polícia do Huambo, Elias Luvulo, acusou o deputado Kamalata Numa  de ter visitado aldeias do Huambo sem o conhecimento das autoridades, salientando que essas visitas carecem de autorização.”
“publicado 14:52 11 fevereiro '11
O militante da UNITA António Kaputo foi hoje condenado a 45 dias de prisão com pena suspensa por três anos pelo tribunal provincial do Huambo, Angola, o que levou o secretário-geral do partido a terminar a greve de fome.
Secretário-geral da UNITA termina greve  de fome após condenação de militante a  45 dias de prisão com pena suspensa “
In, Internet
Deixo-vos, neste meu texto, vários textos que mostram como funciona a “Democracia” em Angola – muito, mas mesmo muito, limitadamente.
Por isso, vemos um cidadão a ser preso e a ser condenado, a 45 dias de prisão com pena suspensa, por arvorar, no Huambo, publicamente, uma bandeira partidária, no caso da UNITA.
Eis porque reafirmo que Deolindas há muitas, mas acentuando, desde já, que ainda bem que surge uma canção protesto que vira sucesso entre os jovens, pois é essencial que a Juventude se reconheça em algo, a partir do qual se afirme política e socialmente.
Mesmo que não concordando comigo e mesmo que não concorde com o teor desse protesto.
Na verdade, goste-se ou não, acredite-se ou não, entenda-se ou não, Portugal é um dos países privilegiados e com privilegiados  do Mundo.
Vivemos uma Democracia onde o acto de insultar o primeiro ministro quase que é bem visto pelos meios judiciais – experimentem fazer o mesmo em Luanda!
Vivemos uma Democracia onde existe o direito à greve, à negociação colectiva de trabalho, à concertação social, à saúde pública, ao ensino publico, à protecção social e à segurança social – experimentem encontrar tal em Luanda!
E, reparem, falo em Luanda, porque experimentem sair de Luanda e verão então o mais explícito dos totalitarismos a funcionar, como vemos com o caso do António Kaputo – 45 dias de prisão suspensa por empunhar, hastear uma bandeira partidária na 2ª/3ª cidade de Angola e um policia a censurar publicamente um deputado!
Não nos comparemos com os mínimos mas sim com os máximos, dir-me-ão.
Erro.
Temos de nos situar, e situamo-nos comparando-nos com ambos, mínimos e máximos, por forma a aquilatarmos do percurso já percorrido
Temos, em Portugal,  uma forte percentagem de Jovens, muitos deles licenciados, desempregados?
Temos pois. Mas em Angola o desemprego anda pelos 27/30 %, afectando todos, dos licenciados aos não licenciados e mais, se não és do partido do poder não se trata de auferires menos, trata-se de poderes nem ter vida.
Temos jovens que vivem aos 30’as em casa dos pais?
Temos pois mas os pais têm casa, o que não é bem o mesmo em Angola!
Temos as prestações sociais em redução?
Temos sim, pois, estando em crise, torna-se difícil saber como encontrar soluções que sejam suficientemente abrangentes, mas, sobretudo, falta-nos, em alguns sectores económica e socialmente dominantes,  o sentimento de solidariedade suficiente para que a justiça redistributiva seja naturalmente aceite.
Esses preferem dar aos pobrezinhos, ….para ter um lugar no Céu, esquecendo aquele versículo segundo o qual é mais fácil  um camelo passar por um buraco da agulha que um rico entrar no reino dos Céus…
E, assim, alguns protestam porque, ganhando largamente acima de 5 000 euros mês, lhes será retirado 10%, e outros, que convivem bem com 1 000 euros por dia, não se sentem mal com o ambiente social onde vivem,  e nada fazem por mostra a solidariedade que deveriam mostrar por quem os remunera de tal forma, pois são a larga maioria dos que auferem a média salarial dos 700 euros mês que os sustenta nos mil euros dia!
Mas felizmente não temos Pessoas que, com esmolas e outros, não conseguem auferir mais que um dólar por dia como em Angola, onde 30% das Pessoas vivem assim.
Felizmente existem as prestações sociais, a saúde publica, o ensino publico, o Magalhães, etc, pois em Angola o que existe é a generalizada falta de água canalizada, de luz eléctrica,  de estradas, de habitações condignas, de escolas condignas, de hospitais e centros de saúde, e, como vemos, como o caso do António Kaputo  mostra, de Liberdade!
Felizmente, os deputados portugueses  circulam livremente em todas as aldeias do país se o quiserem ao contrário do que acontece em Angola onde um chefe da polícia se sente no direito de advertir um deputado da oposição por este querer visitar, sem autorização, aldeias, como sucede com o meu amigo Numa!
Não fechemos pois os olhos a esta realidade – os proletários do Mundo não estão na gorda Europa, no gordo EUA, no gordo, Japão, mas sim na famélica África, na subdesenvolvida América do Sul, na Ásia, etc.
Zonas do Mundo para os quais só olhamos pela televisão para depressa esquecermos!
Porque a falta de solidariedade que sentimos entre nós, por cá, está espalhada, por nós, quando nos comparamos a estes Outros, a estes que estão fora do Mundo dos Ricos!
Por isso, sobre António Kaputo nada se diz em Portugal, país irmão de Angola.
E dirão alguns estamos como estamos nada mudará…pois eu atrevo-me a dizer, não tomem por certo o que existe hoje!
Porque há quem queira que tal deixe de acontecer – aqueles que pretendem destruir os Estados, porque estes são instrumentos que fornecem demasiada segurança a demasiadas pessoas e em demasiados sectores.
Encarecendo as actividades económicas.
Esses têm capatazes maiores e menores e entre os maiores estão as Agências de Notação nos “países ricos”  e os ditadores nos países pobres.
Já tive amigos meus que me disseram que não assinariam a Petição pela Regulamentação Internacional das Agências  de Notação porque não valeria a pena e porque outros tratariam do assunto sem chatices!
Pois.
Contem com o bolo na mão contem…..
Eu prefiro dizer Assinem mas é em  http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N6501 a Petição e  reforcem a Campanha que assim travaremos os que querem destruir os Estados e tornar  selváticas as economias!
Porque se nos movimentarmos por estas razões cumprimos funções que serão positivas para nós, os ricos, e para os proletários de hoje!
10 de Fevereiro de 2011
O documento que comprova a interdição do hasteamento da Bandeira da Unita no Huambo

A nossa bébé democracia não pode  prosperar com actos desta natureza, quando as autoridades que exercem o poder público (políticos e autoridades tradicionais) não  conhecem e violam a Constituição; neste primeiro ano de vigência, esta Constituição deveria entrar para o record do Guiness,  pois no mundo inteiro foi a primeira a ser  violada em tão pouco tempo de existência (em Março de 2010 ocorreu a primeira violação com a negação por parte das autoridades da  realização da manifestação que a organização  OMUNGA pretendia realizar, vários atropelos à  lei mãe têm sido cometidos nas zonas diamantíferas no decurso do ano passado e agora há várias denúncias do maior partido da oposição que afinal eu não sabia  mas que têm fundamento, de acordo com o documento em anexo.
Angola_Huambo_Regulo Este documento viola claramente os direitos fundamentais dos cidadãos angolanos que livremente escolhem um partido político para se filiarem. As autoridades públicas deste país não podem ver estes actos e permitir que a intolerância política reine.
Eu quero ver uma Angola onde MPLA, UNITA e outros partidos possam ter uma convivência saudável e um exercício do jogo  democrático com as regras estabelecidas na Constituição, pois  como alguém do MPLA está semana disse a Constituição é de  todos nós, portanto vamos todos cumpri-la, mesmo que isso implique ver a bandeira do nosso adversário hasteada perto de nós.
Atenciosamente,
Mihaela Webba
Noticiaspress
Joffre Justino
E-mail :  jjustino@epar.pt
Blog pessoal: coisasdehoje.blogs.sapo.pt/

Revelações de Jaime Khamba ensombram história da FRELIMO e Mondlane

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Noticiasavana Nos finais do ano de 2000, Fanuel Gideon Mahluza trouxe a lume informações até então desconhecidas contradizendo a versão oficial sobre a história da libertação nacional levada a cabo pelo partido no poder. Eis que cerca de três anos depois surge dos Estados Unidos da América um Moçambicano, ex-combatente da luta armada, corroborando com Mahluza, e de certo modo avançando detalhes.
Rodrigues Luís(Texto), Dinis Jossias(Fotos)
"A história da libertação Nacional tanto como a dos fundadores da FRELIMO não está a ser bem contada, pois o que se diz e esta escrito nos livros didácticos não corresponde a verdade”, eis as palavras com que Jaime Maurício Khamba, ex-combatente da libertação Nacional, actualmente a residir há 40 anos nos Estados Unidos da América (EUA), abriu a conversa com o Savana. Segundo Khamba, a razão que o levou a contactar o nosso Jornal prendo-se com o fornecimento de subsídios que possam esclarecer a história contemporânea, de modo a que os compatriotas entendam-na. Adianta ainda que, no País existe multa gente que, embora conhe­cendo os factos, refugia-se num silêncio cumpliscente.
Jaime Maurício Khamba, ou Ntema Ganda, como era conhecido no tempo de libertação nacional, jura de pés juntos que na formação da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) os nomes hoje mencionados como sendo obreiros da unidade nacional não passa de uma invenção.
Para a nossa fonte, Eduardo Mondlane, 1º Presidente da FRELIMO, Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique independente e Joaquim Chissano, actual chefe de Estado, são figuras apon­tadas pelo nosso interlocutor como sendo os grandes ausentes na formação da Frelimo.
Segundo Jaime Khamba, na actual historiografia moçambicana, nomes como de Eduardo Mondlane, Samora Machel e muitas outras figuras na liderança da Frelimo são erradamente mencionadas como tendo participado na criação da FRELIMO. Todavia, "a verdade no meio desta mentira é que estas individualidades participaram activamente e contribuíram no sucesso da revolução que levou a queda do fascismo no nosso país".
Jaime khamba defende que a nova geração não deve ser refém das inverdades narradas em torno da história da Frelimo como uma frente, pois personalidades há que, embora em pleno gozo da vida, tem preferido a mudez como forma de omitir os factos em torno da formação da FRELIMO.
Marcelino dos Santos, Lopes Tembe Ndiomba, Abílio Araújo Matsinhe e muitos outros são mencionados pelo nosso interlocutor como sendo lendas vivas que deviam reescrever a história pois conhecem-na muito bem, mas pela posição tomada no Governo eles não são capazes de contar urna vez terem participado na elaboração de mentiras.
Para aquele ex-comba­tente, é duro reparar como o Presidente Joaquim Alberto Chissano, Marcelino dos Santos, Pascoal Mocumbi, Lopes Tembe Ndelane, Constâncio Ndiomba e Dr. Joaquim Boaventura Verimbo têm ignorado o reconhecimento daqueles que formaram a Frelimo, uma vez estão a par da veracidade sobre a fundação da FRELIMO.
Disse que a ideia de nascimento da FRELIMO surgiu numa fase em que os
três movimentos, nomeadamente a União Africana Nacional de Moçambique (MANU), Associação Africana de Moçambique (MAA) - uma união dos Macondes criada em 1960, e a UDENAMO, viviam um momento de grande tensão1.
"Vivia-se uma tensão étnica no nosso seio por haver também um grande número de iletrados. Eu e Adelino Gwambe, também, conhecido por Hlomulo, estudamos a forma de resolver a questão, Eu lhe sugeri que juntássemos estas organizações para formar uma só frente composta por 18 membros da comissão executiva a nível nacional", frisou Khamba.
O entrevistado disse ter igualmente proposto que, após a reunificação dos três movimentos, cada província deveria ter seus representantes e que a liderança desta frente teria que ser distribuída por todas as regiões do país. Disse ainda que "propus que os oficiais que não escreviam e nem falavam a língua Portuguesa deveriam ser eleitos vice-presidentes ou deputados. Gwambe concordou com todas as minhas propostas, excluindo a de que o executivo deveria ser composto por 18 membros, alegadamente porque o número era elevado, o que facilitaria a infiltração da polícia política portuguesa (PIDE).
A formação da FRELIMO
"Não é por acaso que Marcelino dos Santos recorre à primeira pessoa do singular gabando-se de ser Frelimo", pois aquele participara activamente na formação da Frelimo.
Segundo Jaime Khamba afirmou ter sido ele a sugerir a fusão dos três movimentos sem no entanto prever o nome que a mesma a organização passaria a denominar-se. O nome FRELIMO nasceu em Janeiro ou Março de 1962, em Accra, Ghana, durante uma conferência organizada pelo Dr. Nkwame Nkrumah, denominada "Conference of freedom fighters" ou seja conferência dos combatentes da liberdade 2.
De acordo com o nosso interlocutor, o nome FRELIMO foi sugerido pelo Fanuel Gideon Mahluza, vice-Presidente da UDENAMO, onde foi acolhido por maioria absoluta numa assembleia na qual fizeram parte Adelino Xitofo Gwambe, Marcelino dos Santos, David José Mabunda (presentemente em Michigan, EUA).
Após a escolha do nome submeteu-se à apreciação do Dr. Nkrumah, tendo ultimamente sido remetido ao Peter Mbju Koinange que era Secretário-Geral do movi­mento Pan Africano do Este e da África Central. Isto viria a culminar com a aprovação da denominação FRELIMO, após que a mesma viria a ser anunciada em Accra e Dar Es Salam. "Durante este período não estava presente nenhum dos nomes que hoje se ouve falar serem fundadores da FRELIMO, incluindo Mondlane, Machel ou simplesmente membros que estão no actual Governo.
Eu desafio as pessoas a terem que consultar as historiografias existentes em Tanzânia a Kenya, pois facto foi amplamente divulgado nos órgãos de informação. Só em Tanzânia podem procurar nos jornais "Nguromo" e "The Tanganyka Standard", enquanto isto em Kenya "The East African Standard" e The Daily Nation of Kenya", do período que vai desde Janeiro de 1961 até Junho de 1962" 3.
Khamba elucidou atra­vés dos documentos que possuía que apesar da organização ter sido for­mada em Fevereiro e Março foi formalizada no dia 25 de Junho 2.
Mondlane chega a FRELIMO na boleia das Nações Unidas
Um programa levado a cabo pelas Nações Unidas nos países de África, Ásia, América do Sul e Caraíbas cujo pano de fundo era a situação política nos territórios colonizados levou a que em 1962 deslocassem ao continente negro várias individualidades, uma das quais é o Dr. Eduardo Mondlane. Este, segundo a nossa fonte, antecipou-se à presença ou chegada, à Dar-Es-Salaam, da Comissão dos Assuntos políticos dos Países Africanos de Expressão Portuguesa, liderada por Archerk Maroul da Guiné Conacri.
Adelino Gwambe, Jaime Khamba, Lopes Tembe Ndelane (antigo embaixador Moçambicano na China e Zimbabwe), Filipe Samuel Magaia, António Tchapo, Miguel Marupa e outros, são que participaram no primeiro encontro com a comissão das Nações Unidas.
Poucos dias antes da chegada em Dar Es Salam da equipa das Nações Unidas, com a intenção de investigar sobre os assuntos dos países africanos de expressão portuguesa, percebe-se a presença do Dr. Eduardo Mondlane, numa altura em que Mabunda e Adelino Gwambe, na qualidade do Presidente da UDENAMO, tinham-se deslocado à Ghana.
Urias Simango
A sua saída provisória para Ghana, Gwambe e Mabunda atribuíram ao reverendo Urias Simango, que se juntara à UDENAMO através da uma organização denominada "Portuguese Easty African Society", fundada no Zimbabwe, a responsabilidade sobre a direcção, tendo como seu coadjuvante Paulo Gurnane.
Urias Simango é citado pelo nosso interlocutor como tendo criado base do movimento em várias posições. Ele fazia um trabalho intenso no Zimbabwe, através da "Portuguese Easty African Society", que se camuflava com a utilização de vestes de padres, de tal modo que recrutavam facilmente jovens à Rodésia, tanto como para Tanzânia. Naqueles anos Simango foi quem recrutou muitos Moçambicanos para a libertação do Pais.
"No dia em previsto para a realização da reunião com o responsável da Comissão dos Assuntos Políticos do Países Africanos de Expressão Portuguesa, Archerk Marouf, Eduardo Mondlane chegara ao palco da conferência, um edifício designado Nazmoja, acompanhado por tanzanianos, ao que os líderes das organizações, nomeada­mente UDENAMO e MANU, estranharam. Mal vi o Dr. Mondlane de imediato comuniquei ao reverendo Urias Simango e Paulo Gumane, os quais não acreditaram porque não tinham sido avisados sobre a sua vinda à África. Mas com a descrição que lhes forneci, Simango acreditou que tratava-se na verdade de Mondlane, tendo no entanto lá se dirigido a fim de desejar-lhe os cumpri­mentos de boas vindas", conforme afirmou Khamba. Simango chegara a Nazmoja após o Dr. Eduardo Mondlane ter apresentado a sua comunicação à referida comissão das Nações Unidas, denunciando, entre outras coisas, a violação dos direitos humanos. A sua inter­venção foi bastante louvada nos circuitos políticos tanto como na imprensa nomea­damente "Tanganyka Standard” que o citou como sendo um académico Moçambicano que lecciona no ensino superior."Syracuse University", em Nova Iorque.
Naquele dia, após Dr. Mondlane ter apresentado o seu, relatório, segundo recorda o nosso interlocutor, Urias Simango, representando as organizações UDENAMO e MANU também fê-lo sem no entanto entrar em fricções com o primeiro.
Recorde-se que nesta altura Hlomulo e Mabunda encontravam-se em Ghana. A estadia prolongara-se por longo tempo, ao ponto de se ter especulado que aqueles dois andavam a esquivar-se de Eduardo Mondlane.
Para Jaime Khamba, a verdade é que Gwambe, na qualidade de Presidente da UDENAMO, era na altura muito solicitado noutros países para debater questões da revolução contra os imperialistas. "Nessa altura havia rumores de que ele receava encontra-se com o Dr. Mondlane,' mas a verdade é que se encontrava em Nova Deli, na Índia, para assistir a Conferência de Juventude".
Noutros círculos, de acordo com o nosso interlocutor, o atraso de Gwambe era visto como uma forma de protesto contra Dr. Mondlane alegadamente por este, estando a residir na América, nunca ter-se empenhado nas actividades politicas à semelhança de alguns líderes intelectuais corno Dr. Hastings Kamuzu Banda, Jomo Kenyata, quando estes estavam ainda na Inglaterra. E não, por aquele ter visitado a sua família em Moçambique, em 1961, sem nenhum tipo de problema com os colonos, quando por aquela altura havia uma escalada de detenções em Moçambique e Angola.
Eleições na FRELIMO
Finalmente Adelino Gwambe chega à Tanzânia ido da Índia. Posto isto ele (Gwambe) e Eduardo Mondlane tiveram um encontro prolongado a portas fechadas. Segundo a nossa fonte, o tal encontro eram para ambos dissiparem equívocos sobre aquilo que tinha acompanhado em relação a ausência do Gwambe.
O Dr. Eduardo Mondlane e Reverendo Urias Simango eram apenas dois candidatos numa eleição renhida no dia 25 de Junho de 1962. Gwambe fez campanha para Simango mas mesmo assim o seu candidato preferido não passou. Eduardo Mondlane teve 51% de votos e o seu opositor Urias Simango foi confiado 49%, tendo em resultado do escrutínio o derrotado assumido o cargo de vice-Presidente do movimento, FRELIMO.
O primeiro presidente da Frelimo convidou, sem sucesso, Adelino Gwambe para ocupar o cargo de Secretário-Geral, ao que este recusara tendo sugerido que a função fosse assumida por David José Mabunda.
Staff da Frelimo (1962)
1. Dr. Eduardo Chivambo Mondlane - Presi­dente
2. Reverendo Urias Timóteo Simango - Vice Presidente
3. David José M. Ma­bunda - Secretário-Geral
4. Paulo J. Gumane - Vice-Secretário Geral
5. Jaime Mussadala  - Tesoureiro Geral
6.João Mauenda - Vice-Tesoureiro
7. Rafael S. Nungu - Secretário Administrativo
8. Mateus M. Mmole – Vice-Secretário Administrativo 4
9. Lourenço Mutaca - Secretário Financeiro
10.Leo Milas - Secretá­rio de mobilização
11.Lourenço Millinga - Vice secretário de mobili­zação
12.Marcelino dos Santos - Secretário de assuntos exterior
13.F. Dewase - Secretá­rio da Juventude
Leo Milas cria bagunça
Logo que se concretizou a eleição de Dr. Mondlane para o cargo de presidente da Frelimo, o que foi interpretado que fora maquinada para que o mesmo tomasse o poder, de imediato o presidente da FRELIMO partiu para os Estados Unidos da América (EUA), deixando como substituto Leo Milas, um cidadão cuja nacionalidade desconhecíamos. O vice-presidente Reverendo Urias Simango, no lugar de dirigir, foi preterido.
A indicação de Leo Milas para velar pela FRELIMO no período de ausência de Mondlane mereceu aval do ex-presidente Julius Nyerere, que foi recomendado pelo presidente eleito no sentido lhe prestar todo o apoio necessário. Todavia, Milas começou a criar confusão no seio dos militantes, rasgando ordens de expulsão sem justa causa. Isto ocorre numa altura em que Marcelino dos Santos se encontrava em Marrocos, pois a sua nomeação para o cargo de secretário de assuntos exteriores nesta fase.
Usando os poderes que lhe tinham sido conferidos, Milas expulsou Ilegalmente Paulo Gumane, David Mabunda e outros. Leo Milas, que não tinha espírito de liderança, de acordo com Jaime Khamba, solicitou Marcelino dos Santos a escrever ao ex-Presidente do Uganda, Milton Obote, para perseguir os que fugiam de maus tratos no seio do movimento. O substituto de Mondlane também não poupou o reverendo Urias Simango demonstrando desrespeito a esta figura respeitada que servia da biblioteca de todas as organizações Africanas que se encontrava a preparar a revolução naquele país.
Marcelino dos Santos acusado de trair Sigauke
 
Conforme referimos acima, a nomeação de Marcelino dos Santos para o cargo de secretário dos assuntos exteriores da Frelimo foi feita numa altura em que se encontrava em Marrocos. Marcelino tinha sido suspenso da UDENAMO, por suspeitas de traição a Jaime Rivaz Sigauke, oficial daquele movimento que foi captu­rado na Rodésia em 1961 e deportado para Moçambique donde foi cair nas mãos dos portugueses.
A suspeita caiu para Marcelino dos Santos, segundo o nosso interlocutor, porque momentos antes da sua detenção na Rodésia, Sigauke teve confidências com este.
Ao longo do tempo, conforme conta Jaime Khamba, Marcelino dos Santos sentia-se inseguro no movimento por causa da sua cor. Santos (mestiço) julgava-se descriminado racialmente a ponto de em 1968 escrever no seu diário em língua Chinesa que os Moçambicanos viam nele como um não verdadeiro Africano.
Jaime Khamba disse que ele juntamente com o seu companheiro John Bande tiveram a oportunidade de reconhecer o diário de Marcelino dos Santos no
avião, quando uma delegação Chinesa, que partia à Moshi, uma zona de
Tanzânia para uma conferência de solidarie­dade Afro-Asiática, lhes
traduziu à letra o conteúdo dos escritos do secretário das relações exteriores. Os tais chineses ficaram impressionados com o nível de escrita de dos Santos.
Marcelino dos Santos é citado como tendo-se queixado ao Dr. Mondlane que a sua suspensão na UDENAMO "deveu-se aos problemas raciais, o que não é verdade porque antes da sua nomeação em 1961 em Marrocos como oficial da UDENAMO e da Confe­rência das Organizações da África Negra Sob Domínio Colonial Português (CONSP) nós já sabíamos que era um mestiço cujos parentes são Cabo-verdeanos. Nessa altura, Samora Machel e compa­nhia ainda não estavam dado muitos deles juntaram-se a nós em 1963, tendo contudo contribuído fortemente no desenvolvimento da revolu­ção.
SAVANA – 05.09.2003
_______
NOTAS (Baseadas na obra “MOZAMBIQUE - The Tortuous Road to Democracy” de João M. Cabrita (Macmillan, Londres e Nova Iorque, 2000)):
1.    Khamba fala da fusão de três movimentos, nomeadamente a Udenamo, a MANU e a Makonde African Association (MAA). Na realidade, a fusão foi entre a Udenamo e a MANU. A MANU englobava as três alas da Makonde African Association (MAA) que se haviam coligado em Janeiro de 1961. As alas da MAA e os respectivos dirigentes eram os seguintes:

MAA (Dar-es-Salam) – Mateus Mmole

MAA (Zanzibar) – Ali Madebe

MAA (Mombaça) – Samuly Diankali

2.    A fusão entre a Udenamo e a MANU ocorre em Dar-es-Salam a 24 de Maio de 1962, portanto antes da conferência de Acra. A conferência a que Khamba se refere como “Conference of freedom fighters” foi a «African Freedom Fighters Conference» que teve lugar em Acra nos finais de Maio e princípios de Junho de 1962, e não em “Janeiro ou Março de 1962”.

3.    O comprovativo de que a «African Freedom Fighters Conference» realizou-se de Maio a Junho de 1962 é a notícia dada pelo jornal ganiano, Evening News, edição de 6 de Junho de 1962 (pp 1 e 2), com o título, “Mozambique Parties Answer Osagyefo’s ‘Close Ranks Call’”. “Osagyefo” (ou Redentor) era o título honorífico de Kwame Nkrumah.

       4.  A Mmole foi na realidade atribuído o cargo de tesoureiro. João Munguambe
           foi designado secretário da defesa e segurança, tendo como adjunto Filipe Magaia.
Para imprimir: Download EntrevistaSavana05Set2003a
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Uma reflexão acerca das divergências durante a luta de libertação nacional

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Reflexão
Por JOAQUIM NOTICE1, EURICO BAPTISTA2  e LUÍS M. MENO3
IINTRODUÇÃO

No presente trabalho abordaremos o Comité Revolucionário de Moçambique (COREMO), privilegiando os aspectos relacionados com a origem, participação e “desaparecimento”, com recurso a pesquisas bibliográficas4 e depoimentos5 dos combatentes da luta de libertação nacional e de membros dos movimentos que coexistiram antes e depois da fundação da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). A pesquisa pretende trazer uma perspectiva histórica para discussão sobre o papel assumido pelo COREMO no processo da luta de libertação nacional e, como se assegura na gíria popular, aproveitar o útil ao agradável, pois, estamos num período em que a FRELIMO completa 50 anos da sua existência. Assim, no trabalho apresentaremos o desenvolvimento, consequências e seu impacto no actual cenário político moçambicano, sempre na perspectiva académica, partindo da fundação de movimentos nacionalistas, duma forma geral, sugerindo um quadro mais amplo que envolve vários actores e factores que concorreram para o surgimento de dissidências nos vários movimentos ao longo da luta de libertação, sem obscurar a natureza dos conflitos que acompanharam este processo.

COMITÉ REVOLUCIONÁRIO DE MOÇAMBIQUE

A constituição da FRELIMO não foi um processo linear, como se pode depreender. Os três movimentos constituintes da organização (UDENAMO, UNAMI e MANU) eram distintos e largamente influenciados pelas afinidades culturais dos países de acolhimento, pelos tipos de organizações existentes na tradição colonial inglesa e, principalmente, pelo não conhecimento mútuo total.

A UNAMI, fundada em 1958, na circunscrição de Moatize, e oficializada no Malawi em 1961, definia-se de forma mimética em relação ao Malawi Congress Party. Em 1960 constituiu-se a UDENAMO, em Salisbury, que se inspirava no African National Congress/Zimbabwe African People United (ANC/ZAPU) e no sindicalismo da Rodésia do Sul. O MANU, fundado em Tanganhica, em 1961, inspirava-se e estava muito ligado ao Tanganhica African Nation United (TANU).
Alguns destes movimentos tinham uma visão etno-regionalista da independência e mesmo a forma da sua obtenção era assunto de acesos debates, com uns a optarem pela luta armada, outros pela via negocial e a da acção das Nações Unidas. A UDENAMO, por exemplo, era o único movimento que reunia moçambicanos com níveis académicos relativamente acima de média entre os movimentos de libertação. Por via disso, na Tanzania eram evidentes divisões e conflitos regionais entre esta organização fundada por moçambicanos originários do sul de Moçambique e o MANU, composto essencialmente por moçambicanos de origem maconde.
Entre os dias 30 de Maio e 2 de Junho de 1962 realizou-se em Acra, Gana, a Conferência dos Movimentos de Libertação Africanos (All African Freedom Fighters Conference). Para representação moçambicana foram convidados o MANU e a UDENAMO. Foi na sequência  desta conferência que a UDENAMO e o MANU se fundiram na noite de 1 de Junho de 1962, formando-se, pela primeira vez, a FRELIMO e tendo Adelino Gwambe sido eleito presidente.
No seu regresso a Dar-es-Salaam, a FRELIMO nascida em Gana não viria a reunir consenso da maioria como se esperava, devido à ausência da UNAMI em Acra, bem como a liderança de Adelino Gwambe, devido à sua tenra idade (21 anos) e porque, entretanto, havia aumentado o número de refugiados moçambicanos em Dar-es-Salaam. Em consequência, agendou-se e realizou-se a magna reunião no dia 25 de Junho de 1962, onde foi refeito o projecto de unificação; constituiu-se a FRELIMO, reestruturou-se a organização e foi formado o Comité Central que presidiu ao Iº Congresso em Setembro de 1962, onde Eduardo Mondlane viria a ser reeleito presidente da FRELIMO e Urias Simango, vice-presidente.
A aparente unidade conseguida com a fundação da FRELIMO, como referimos, era precária e estava minada por ideias retrógradas, pelo tribalismo, regionalismo e racismo. No período comprendido entre 25 de Junho de 1962 e 25 de Setembro de 1964, muitos membros fundadores foram expulsos da FRELIMO e da Tanzania pelo Governo e outros simplesmente decidiram abandonar a Frente. Em finais de 1962, foi expulso da FRELIMO Adelino Gwambe; em 1963 foram expulsos David Mabunda, Paulo Gumane, Mateus Mmole, Fanuel Malhuza e Baltazar Chagonga e, em 1964, foram expulsos Leo Millas, Amos Sumane, Joseph Chitenge e outros militantes.
Tentativas feitas para persuadir o regresso dos desertores não foram bem sucedidas porque a situação já estava, por si, deteriorada. Maior parte dos dissidentes não aceitou voltar ao movimento sob direcção de Mondlane. Assim, a FRELIMO não conseguiu evitar o surgimento de falanges independentistas que preferiram criar outros movimentos nacionalistas para, do mesmo modo, lutar contra o colonialismo, a partir dos países de acolhimento. Foi na sequência destas dissidências que se fundou o COREMO, na Zâmbia. Na verdade, o COREMO e outros grupos dissidentes são a consequência das divergências internas surgidas na FRELIMO logo após a sua fundação.

1 Licenciado em ensino de História e de Geografia pela UP/M e mestrado em Educação: Currículo pela PUC/SP. Docente e director dos Cursos de História e de HIPOGEP na UP/B
2 Licenciado em ensino de História pela UP/B, coronel das FAM
3 Licenciado em História pela UEM e docente dos cursos de História e de HIPOGEP, na UP/B
4 Documentos constituídos por livros, comunicados de imprensa e constituições dos movimentos, artigos e informação processada na Internet.
5 Entrevistas em Chileka (Malawi), Zumbo e Marávia (Tete) e, em Nyimba (Zâmbia) DIÁRIO DE MOÇAMBIQUE – 16.04.2012
Uma reflexão acerca das divergências durante a luta de libertação nacional (fim)
Reflexão
Por JOAQUIM NOTICE1, EURICO BAPTISTA2  e LUÍS M. MENO3
As divergências que surgiram na FRELIMO, as quais fazemos menção, foram acompanhadas pelo reaparecimento diversificado dos partidos originais a reclamar representatividade, como foram os casos da nova UDENAMO, nova MANU, do Mozambican Revolutionary Council (MORECO) e outros grupos. Tentativas feitas pelo Governo da Zâmbia e pela UDENAMO para a unificação dos movimentos numa única organização redundaram num fracasso devido à “mão de ferro” da FRELIMO, o que precipitou a ruptura definitiva. Deste modo, é constituído o COREMO a 31 de Maio de 1965, em Lusaka, na República da Zâmbia. Com apoio garantido de alguns países africanos, sobretudo da Zâmbia, da China e do leste europeu, o COREMO propunha-se a libertar Moçambique através da luta armada e aceitar outros métodos progressivos para pôr termo ao colonialismo português. O EREPOMO, braço armado do COREMO, levou a sua primeira acção em Zumbo, a norte de Tete, a partir de Novembro de 1965. Realizou operações militares com algum sucesso até finais de 1967, altura em que iniciam as crises na liderança que culminariam com a expulsão de Adelino Gwambe e a eleição de Paulo Gomane para presidente do COREMO. O movimento prosseguiu a luta até finais de 1971, mas sem sucessos iniciais e acabou se desagregando com deserções dos seus líderes e guerrilheiros, uns para FRELIMO e outros abandonaram o projecto de libertação. Em princípios de 1972, desapareceu o COREMO como movimento guerrilheiro.
A 25 de Abril de 1974 ocorreu o golpe de Estado em Portugal e abriram-se novas perspectivas para os movimentos de libertação africanos, particularmente, moçambicanos. No período de Junho a Agosto de 1974, constituíram-se mais de 20 partidos políticos em Moçambique com vista ao referendo e às eleições. Em Julho de 1974, na cidade da Beira, ressurge o COREMO que em parceria com GUMO e FUMO formam o Partido da Coligação Nacional (PCN), liderado por Urias Simango, com propósito de participar nas conversações sobre a independência de Moçambique.
Contudo, ao longo das conversações a delegação portuguesa propôs a presença de outras forças políticas moçambicanas merecedoras de participarem nas discussões sobre o futuro do país, mas a FRELIMO reprovou a proposta. Assim, a 7 de Setembro de 1974, foram assinados os Acordos de Lusaka entre a delegação da FRELIMO, representada por Samora Machel, e a do Governo português, liderada por Mário Soares. Nos termos do acordo firmado, os poderes seriam transferidos para a FRELIMO e não se previa realização de eleições democráticas.
Membros do PCN e de outros partidos políticos moçambicanos presentes em Lusaka com intenção de pressionar as duas delegações para participar nas conversações finais foram detidos pela segurança zambiana e enviados para a base da FRELIMO em Nachingwea, Tanzania. Assim desapareceu, definitivamente o COREMO.

CONCLUSÃO

O COREMO, como explicamos antes, foi um movimento criado por dissidentes da FRELIMO que, a seu modo, participou na luta de libertação a partir da Zâmbia, realizando acções militares de guerrilha, preferencialmente, ao norte da província de Tete. Devido à sua natureza e ao tipo de conflitos políticos internos ocorridos ao longo da sua existência como movimento de libertação, nunca foi reconhecido pelo Comité de Libertação da OUA e pelos estadistas dos países vizinhos de Moçambique, à excepção da Zâmbia. Daí, pensamos, seja razão fundamental do desmoronamento do seu projecto nacionalista.
Com modus faciendi sem apoio popular numa guerra de guerrilha, com suporte de militantes mobilizados por meio de raptos e aliciamento material e, com um nacionalismo autoritário à “mistura”, o COREMO não sobreviveu o tempo suficiente para saborear a almejada independência. Desapareceu em 1972. Mesmo depois do seu reaparecimento furtivo em 1974, à luz do golpe de Estado em Portugal, não foi capaz de se impor como uma alternativa política em Moçambique e acabou desaparecendo definitivamente depois dos Acordos de Lusaka, sem glória.

1 Licenciado em ensino de História e de Geografia pela UP/M e mestrado em Educação: Currículo pela PUC/SP. Docente e director dos Cursos de História e de HIPOGEP na UP/B
2 Licenciado em ensino de História pela UP/B, coronel das FAM
3 Licenciado em História pela UEM e docente dos cursos de História e de HIPOGEP, na UP/B
4 Documentos constituídos por livros, comunicados de imprensa e constituições dos movimentos, artigos e informação processada na Internet.
5 Entrevistas em Chileka (Malawi), Zumbo e Marávia (Tete) e, em Nyimba (Zâmbia)
DIÁRIO DE MOÇAMBIQUE – 17.04.2012
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Análise
Por Simon Muteerwa*



Maputo (Canalmoz) – Na entrevista concedida ao Canal de Moçambique, o Dr. Eric Morier-Genoud referiu-se à questão da guerra civil.
Repete conceitos há muito conhecidos de que a Renamo foi uma criação rodesiana, que era uma oposição qualitativamente inferior. Defende depois a ideia de que até 1984 não havia guerra civil em Moçambique, mas antes uma guerra de desestabilização, alegando que só a partir desse ano é que a Renamo desenvolveu uma dinâmica mais interna.
Na análise que faz da evolução política moçambicana a seguir à independência, Morier-Genoud parte de uma premissa errada pois pretende explicar o surgimento da oposição armada em Moçambique como uma questão ditada do exterior, em decalque da versão oficial da história do nosso país. Morier-Genoud peca por ignorar que antes de a Renamo ter sido fundada, ocorriam, longe das fronteiras com a Rodésia e África do Sul, acções de guerrilha levadas a cabo pelo Partido Revolucionário de Moçambique (PRM) de Amos Sumane. E mesmo antes do aparecimento do PRM, o governo da Frelimo deparou com uma dissidência militar interna que viria ser esmagada na sequência de uma tentativa de Golpe de Estado em Dezembro de 1975.
Se quisermos compartimentar a guerra civil moçambicana em moldes de dinâmica interna, 1984 é definitivamente o ano errado. Os factos conhecidos permitem situar uma tal dinâmica em 1979. Graças a apoios obtidos em 1978 – por sinal, provenientes nem da Rodésia, nem da África do Sul – à Renamo foi possível criar condições para que na segunda metade do ano seguinte pudesse estabelecer-se permanentemente no interior do país, em zonas de Manica e Sofala onde já vinha operando desde 1977. Com efeito, em Agosto de 1979 André Matsangaíce cria a Base Central da Renamo na Serra da Gorongosa. Em Outubro, Vareia Manje, João Fombe e Magurende John estabelecem bases em Mucuti, Mabate e Chinete. Em Novembro, Lucas Mulhanga dirige-se para a Serra de Sitatonga, aí estabelecendo uma base, de onde posteriormente partem colunas comandadas por Mário Franque e Paulo Tobias que se estabelecem em Muxúnguè e Chidoco.
Esta movimentação de forças de guerrilha da Renamo, feita a partir de Odzi, coincidiu com importantes operações militares lançadas pelas tropas do governo da Frelimo, durante as quais Matsangaíce perderia a vida, a 17 de Outubro de 1979. São operações que prosseguem, na região da Gorongosa, até inícios de 1980. Em Junho de 1980, ocorre em Manica, a Operação Leopardo contra a base de Sitatonga.
Portanto, em 1980, e contrariamente ao que o Dr. Morier-Genoud afirma, os sul-africanos não levaram a Renamo para a África do Sul. Em 1980, a Renamo já estava em Moçambique e aqui permaneceu até ao fim da guerra.
Ao invés de outros movimentos de guerrilha que operaram nesta região de África entre as décadas de 60 e 90, a Renamo não beneficiou do mesmo tipo de santuários em países vizinhos, onde normalmente estavam sediadas as direcções desses movimentos e de onde desenvolviam, em liberdade absoluta, acções políticas e diplomáticas, e para onde recuavam periodicamente quadros e efectivos militares, consoante a intensidade das operações de contra-guerrilha. Era também nesses santuários, que feridos e doentes desses movimentos eram tratados em hospitais condignos. Está ainda por contar o drama vivido nas áreas de influência ou sob controlo da Renamo, onde feridos e doentes, tanto civis como militares, aí sobreviveram ou pereceram. Só nos finais da guerra civil é que instituições humanitárias como o Comité Internacional da Cruz Vermelha puderam prestar algum apoio pontual nessas áreas.
Em Março de 1984, quando foi assinado o Acordo de Nkomati, a Renamo já operava em nove das 11 províncias do país. Dois meses após a assinatura desse acordo, a Renamo iniciou a luta na Província de Cabo Delgado, restando apenas a Província de Maputo-Cidade. Estes factos demonstram que a presença da Renamo em quase toda a extensão do território nacional e o seu modus operandi desde os primórdios da sua existência foram corolário de uma dinâmica que, como é óbvio, foi atingida muito antes de 1984. Uma dinâmica que teve, necessariamente, de depender do apoio das populações.
O curto espaço de tempo entre 25 de Abril e 7 de Setembro de 1974 não permitiu à incipiente oposição em Moçambique estabelecer raízes, ou consolidar posições, daí a facilidade com que o governo da Frelimo conseguiu decapitar os partidos políticos que se lhe opunham. Isto iria ditar as circunstâncias como a oposição se veio a reconstituir no exílio, circunstâncias essas que não podem, por imperativo de coerência, ser interpretadas sob perspectivas qualitativas como o faz o Dr. Morier-Genoud, tal como outros académicos, todos eles apostados em retirar ou pôr em causa a legitimidade de quem se opunha a um sistema político cuja essência era a negação de valores elementares que eles próprios nunca abdicaram nos países de onde são originários, mas que ainda hoje questionam o direito dos moçambicanos usufrui-los.
*    Antigo combatente da Renamo

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