terça-feira, 18 de abril de 2017

As 45 horas do “assassino do Facebook” acabaram como começaram: com uma morte

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA


O "assassino do Facebook" conseguiu escapar à polícia durante 45 horas, após matar um idoso e colocar o vídeo no seu mural. Acabou por se suicidar no momento em que a polícia se aproximava do carro.
Steven Stephens. Perseguido pela polícia, acabou por se suicidar
Facebook
A polícia chamou-lhe o “assassino do Facebook”. Primeiro, colocou um vídeo naquela rede social a dizer que ia começar uma “Matança de Domingo de Páscoa”. Depois, divulgou outro vídeo em que surge a assassinar um homem de 74 anos. E ainda fez um direto a dizer que já tinha assassinado 13 pessoas e que iria matar a 14ª. Seguiu-se uma caça ao homem.
O momento foi fatal para Robert Godwin — que estava no sítio errado à hora errada –, mas também para o homem que o matou. Steven Stephens acabou esta trágica história como começou: com um tiro. Matou-se após uma refeição no McDonalds e uma perseguição policial que percorreu menos de dois quilómetros. A caça ao homem durou 45 horas.

Domingo, 16 de abril

Era um domingo aparentemente normal, quando um homem aparentemente normal decidiu sair à rua para matar. Steve Stephens — funcionário de uma instituição de apoio a jovens com problemas de saúde mental e respetivas famílias — disparou a sangue-frio sobre um homem de 74 anos. Sabe-se que foi antes das 14h11 da tarde, porque publicou o vídeo, segundo a polícia autêntico, com o assassinato.
14h09. A hora foi divulgada pelo próprio Facebook, num comunicado que a empresa emitiu sobre o assunto. Eram 11h09 em Cleveland, no Ohio, (19h09, em Lisboa) quando Steve Stephens publicou um primeiro vídeo no seu “mural” naquela rede social a antecipar aquilo que o próprio chamou de “Matança de um Domingo de Páscoa“. Neste primeiro vídeo, Steve diz que já matou tanta gente no passado que nem se deu ao trabalho de as contar. Mas naquele domingo de Páscoa ia fazer diferente: “Hoje vou contá-las e vou divertir-me um pouco”. No mesmo vídeo, Steven avisa que tem estado deprimido — com pensamentos suicidas e homicidas — e que procurou ajuda de várias pessoas, incluindo a mãe, mas “ninguém quis saber”O Facebook garante que este primeiro vídeo não foi denunciado por nenhum utilizador.
14h11. O suspeito coloca um segundo vídeo no Facebook, onde se vê, de uma forma clara, que aponta a arma a um idoso e mata-o com um único tiro. Na parte final do vídeo partilhado (a mais sensível, que não está no excerto escolhido pelo Observador para partilhar), vê-se Steve Stephens a apontar a arma na direção de um idoso e depois a filmar o homem que acabou de assassinar rodeado de um banho de sangue, enquanto se afasta do local. O homem assassinado era Robert Godwin, de 74 anos.

Neste vídeo, Steven Stephens começa por dizer que está na rua “à procura de alguém que possa matar”. É nesse momento, em pleno dia, que o homem diz que encontrou “alguém para matar, um velhote” e dirige-se a um desconhecido pedindo: “Importa-se de me fazer um favor? Diga as palavras Joy Lane. É dela a culpa do que está prestes a acontecer-lhe”. O idoso levanta os braços ao sair do local, dizendo que não conhece ninguém chamado Joy Lane, mas Steve Stephens alveja-o na cabeça e ainda filma o corpo ensanguentado no chão, antes de se dirigir para o carro e abandonar o local no seu Ford Fusion. Joy Lane, saber-se-á mais tarde, é o nome da ex-namorada de Stephens.
14h22. Onze minutos depois do segundo vídeo, onde o homicídio é filmado, o suspeito confessa o assassinato utilizando a função “live” (relativa a”vídeos em direto”). É, alegadamente, enquanto conversa com um amigo, que Steven Stephens afirma: “Passei-me da cabeça. Já matei 13 cabrões e estou à procura de um 14º para matar”. Até ao momento só foi reportado pela polícia um único homicídio. Longe dos 13 de que o suspeito fala no vídeo.
Enquanto o direto dura, cerca de cinco minutos, vários utilizadores do Facebook fazem diversos comentários e apelos a que pare a “matança”: “Isto é real?”; “Por favor, para com o que estás a fazer“; “Alguém que chame a polícia“; “Alguém que encontre esta mulher para falar com ele“; “Mata-te a ti próprio“; “Rezo por ti“; “Conduz até a uma estação da polícia e entrega-te“.

14h27. Termina a transmissão live e, pouco depois, é reportado o vídeo do direto.
15h55. A polícia de Cleveland envia um e-mail para os media locais a dar conta do tiroteio e refere que o suspeito é Steven Stephens. Começa uma verdadeira caça ao homem.
16h22. Após o vídeo do homicídio ter sido reportado às 15h59, o Facebook desativa a conta do suspeito às 16h22.
17h05. A Universidade de Cleveland pede aos alunos para se abrigarem ou não se dirigirem ao campus universitário. Quase uma hora depois, às 18h00, a Case Western Reserve envia um e-mail aos alunos com o mesmo pedido.
19h28. A polícia identifica e divulga a identidade da vítima. Trata-se de Robert Godwin Sr., que voltava a casa depois do almoço de Páscoa. Tinha 74 anos, nove filhos e 14 netos. No dia seguinte, Debbie Godwin, uma das cinco filhas de Robert, destacou em entrevista ao Cleveland.com que o pai era “um grande homem, um homem bom”.
20h13. Aperta o cerco ao suspeito. A polícia de Cleveland publica uma foto da viatura onde seguia o suspeito, um Ford Fusion branco.
23h53. A polícia emite um comunicado a dizer que o suspeito abandonou o Estado do Ohio e avisa os habitantes de outros Estados como a Pensilvânia, Nova Iorque, Michigan e Indiana para estarem atentos.

Segunda-feira, 17 de abril

15h13. Em conferência de imprensa, a polícia de Cleveland anuncia uma recompensa de 50 mil euros — cedida pela autarquia de Cleveland — em troca de informações sobre o paradeiro do suspeito. O chefe da polícia fala numa “busca nacional” pelo suspeito.
Entretanto, nove escolas em Filadélfia são encerradas, após várias pessoas terem ligado para o 911, o número de emergência nos EUA, a denunciar o alegado avistamento de Steven Stephens. Aparentemente, era falso alarme.
Tarde. Facebook emite comunicado a condenar o “crime horrendo” e compromete-se a “manter um ambiente seguro no Facebook”. A rede social liderada por Mark Zuckerberg começa por lamentar que o “crime horrível” tenha ocorrido e tenha sido divulgado. O Facebook garante, ainda, estar “constantemente a explorar novas tecnologias que permitam garantir que o Facebook seja um local seguro.”
Noite. Familiares, amigos, e dezenas de habitantes de Cleveland reúnem-se para uma vigília de homenagem a Robert Godwin Sr. e exigem justiça. A vigília foi feita em frente ao local onde o idoso de 74 anos foi baleado, na East 93rd Street, no bairro de Glenville, em Cleveland.
Joy Lane, a ex-namorada de Stephens, disse à revista Time — ainda sob custódia policial, por ser um alvo a abater — sentir-se mal “por todas as famílias afetadas”. Joy Lane disse ainda que Steven Stephens era “um homem bom” e que foi “maravilhoso” com ela antes de tudo isto acontecer. A ex-namorada já tinha enviado uma mensagem escrita à CBS News a confirmar que esteve num “relacionamento [com Stephens] durante vários anos”.

Terça-feira, 18 de abril

09h30. A polícia começou por anunciar que recebeu mais de 400 dicas sobre o paradeiro do suspeito. Até do Texas. Mas até àquele momento, nenhuma correspondia à realidade. Em conferência de imprensa, a polícia assumia assim que não tinha ideia da zona do país em que estaria Steven Stephens.
11h00. A polícia estadual da Pensilvânia é avisada que o Ford Fusion de Stephens está num restaurante da cadeia McDonalds, em Erie, na Pensilvânia. Notícias posteriores dão conta de que tinha acabado de pedir, no McDrive, nuggets de frango e batatas fritas. Ao chegar ao local, a polícia iniciou uma perseguição que durou menos de um milha (cerca de 1.600 metros). Após parar o carro, enquanto os agentes se aproximavam, Steven Stephens matou-se com a própria arma. Foi declarado morto no local.
12h00. Mark Zuckerberg, na conferência do Facebook F8, enviou as condolências à família da vítima e admitiu que a rede social tem”muito mais a fazer” neste ponto. E atirou: “Lembremo-nos disto esta semana pela tragédia em Cleveland. Os nossos corações estão com a família de Robert Godwin Sr. Temos muito trabalho e continuaremos a fazer tudo o que pudermos para evitar que tragédias como esta aconteçam”.

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